É dando que se recebe?
Midas, rei semi-lendário da antiga Frígia, era conhecido pela extrema riqueza. A ele atribui-se a lenda de que, qualquer coisa que tocasse viraria ouro instantaneamente, tendo sido esta a sua perdição, pois não podia tocar nem alimentos e nem seres queridos.
Certos políticos têm, tal qual Midas, o poder, não de transformar o que tocam em ouro, mas sim a triste capacidade de conspuscar, poluir, corromper o que tocam.
Francisco de Assis, após ter tido uma visão de Cristo, converteu-se e passou a viver como eremita, em constante oração. Suas composições mais famosas são “O Cântico do Irmão Sol” e a belíssima peça conhecida como “A oração de São Francisco”. Nesta, um de seus trechos diz: “... pois é dando que se recebe”.
Foi o bastante. O ex-deputado Roberto Cardoso Alves, passou a usar a expressão para mostrar a ligação incestuosa que há gerações une o governo e maus empresários ou políticos dessa estirpe. Entrou para o dicionário das nossas frases infelizes. Aviltou, emporcalhou, sujou o que era uma bela passagem de uma das mais belas orações que se conhece.
Em nome da vontade de garantir a reeleição e de aprovar o que bem quer como bem deseja, o governo federal e muitos governos estaduais ressuscitaram essa prática, se é que ela algum dia morreu, de verdade.
Tudo indica que ao invés de morrer, a prática do “é dando que se recebe” esteve apenas em curto período de hibernação após o período Collor. Não estava morta. Quando muito, estava em estado cataléptico para, tal qual uma Fênix maléfica, ressurgir das cinzas, aguardando a hora precisa de atacar novamente.
Gordas fatias dos partidos políticos, deixam de lado o pudor que nunca tiveram e negociam no sentido mais sujo que a palavra negociar pode ter, e se lançam tal qual abutres sobre cargos e verbas, para o exercício da política menor. Os partidos dão votos e recebem as benesses do poder. É a osmose do imoral com o desonesto.
É verdade que é dando que se recebe. Mas é dando trabalho, justiça, exemplos de dignidade, de competência profissional e vidas dedicadas ao bem comum. Receber votos é - ou deveria ser - mera consequência.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
FÉ E POLÍTICA
Entre as muitas coisas estranhas que podem o imaginário da humanidade, talvez nenhuma seja mais estranha que a fé. Tão estranha que fé e lógica podem tudo: menos andar juntas
A fé, por definição, é a crença, a confiança inabalável em outra pessoa, ente ou fenômeno. É também a primeira virtude teologal, é a adesão ou a ausência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações. É a firmeza na execução de uma promessa ou de compromisso.
Quando se mistura Deus, fé e política, o resultado é mais estranho, porque a fé, quando praticada em países excepcionais na sua formação racial como o Brasil, o resultado se torna incompreensível para os pais das religiões e deuses que cultuamos.
Assim é, que o sempre aprazível de ser lido, Roberto Campos, odiado pela esquerda, provavelmente pela humanidade do seu cérebro e pela clareza das suas ideias, diz em um de seus ensaios que, a “religiosidade brasileira é peculiar e funciona em fogo brando.”
Temos fé, no caso, fé católica, mais no sentido universal da palavra, que no sentido da religião cristã, o que nos faz acreditar também em santos, orixás e exus. Nossa ideia de pecado não é severa. E mesmo com toda a fé, escolhemos dos Dez Mandamentos, só os que nos interessam cumprir. O sexto e nono, evidentemente, nem nos passa pela cabeça cumpri-los. Melhor faríamos se abandonássemos a Tábua da Lei que assim, simplificada, ficaria reduzida a apenas oito mandamentos.
Nossa fé faz de Deus um bom sujeito. Alguém quase da família. A quem se toma um dinheiro emprestado, jurando por todos os juros que vai pagar - e com todos os juros. Claro que a nossa honestidade, nessa área, como bem o diz Campos, “é honestidade de jogador”.
A fé à brasileira ensina que Deus é um pai tolerante, muito ocupado em administrar o Universo, mas a quem pode se recorrer num aperto. E que há de nos perdoar sempre. A esse respeito, o poeta alemão Heine, talvez por francófilo, aprendeu esse sentido mais latino que germânico, ao dizer: “Deus me perdoará. É o seu ofício”.
A classe média é um primor. Jura lealdade ao papa, que é (quase) infalível. Mas não dispensa um bom terreiro, por precaução. Não dispensa, em alguns casos, até mesmo pitadas do misticismo oriental. Tudo é válido, quando se trata de sitiar o Céu.
Enquanto a fé católica é recheada de opulência e ostentação litúrgica, as seitas protestantes fizeram da rotinização do carisma o seu ganha-pão, ou no caso de algumas delas, o seu ganha-milhões... de dólares. E isso pela simples razão de que são mais práticas. Num certo sentido, lembram a umbanda, que permite um contato direto com os deuses da chuva. O pastor é um homem comum, que trata dos problemas mais imediatos de uma população riquíssima... em problemas. O resultado, é uma coleção de fiéis que aumenta dia a dia , juntamente com os saldos de suas contas bancárias. Mas, ao funcionário do sobrenatural, aplica-se o conselho de Max Weber: “aqueles que buscam a salvação das almas, a sua e a do próximo, não devem buscá-la nas avenidas da política”. Não dá certo. É mais fácil acreditar que um camelo passe pelo buraco de uma agulha, que água se misture ao óleo, e que políticos existam, sem falar a língua bifurcada da serpente.
Entre as muitas coisas estranhas que podem o imaginário da humanidade, talvez nenhuma seja mais estranha que a fé. Tão estranha que fé e lógica podem tudo: menos andar juntas
A fé, por definição, é a crença, a confiança inabalável em outra pessoa, ente ou fenômeno. É também a primeira virtude teologal, é a adesão ou a ausência pessoal a Deus, seus desígnios e manifestações. É a firmeza na execução de uma promessa ou de compromisso.
Quando se mistura Deus, fé e política, o resultado é mais estranho, porque a fé, quando praticada em países excepcionais na sua formação racial como o Brasil, o resultado se torna incompreensível para os pais das religiões e deuses que cultuamos.
Assim é, que o sempre aprazível de ser lido, Roberto Campos, odiado pela esquerda, provavelmente pela humanidade do seu cérebro e pela clareza das suas ideias, diz em um de seus ensaios que, a “religiosidade brasileira é peculiar e funciona em fogo brando.”
Temos fé, no caso, fé católica, mais no sentido universal da palavra, que no sentido da religião cristã, o que nos faz acreditar também em santos, orixás e exus. Nossa ideia de pecado não é severa. E mesmo com toda a fé, escolhemos dos Dez Mandamentos, só os que nos interessam cumprir. O sexto e nono, evidentemente, nem nos passa pela cabeça cumpri-los. Melhor faríamos se abandonássemos a Tábua da Lei que assim, simplificada, ficaria reduzida a apenas oito mandamentos.
Nossa fé faz de Deus um bom sujeito. Alguém quase da família. A quem se toma um dinheiro emprestado, jurando por todos os juros que vai pagar - e com todos os juros. Claro que a nossa honestidade, nessa área, como bem o diz Campos, “é honestidade de jogador”.
A fé à brasileira ensina que Deus é um pai tolerante, muito ocupado em administrar o Universo, mas a quem pode se recorrer num aperto. E que há de nos perdoar sempre. A esse respeito, o poeta alemão Heine, talvez por francófilo, aprendeu esse sentido mais latino que germânico, ao dizer: “Deus me perdoará. É o seu ofício”.
A classe média é um primor. Jura lealdade ao papa, que é (quase) infalível. Mas não dispensa um bom terreiro, por precaução. Não dispensa, em alguns casos, até mesmo pitadas do misticismo oriental. Tudo é válido, quando se trata de sitiar o Céu.
Enquanto a fé católica é recheada de opulência e ostentação litúrgica, as seitas protestantes fizeram da rotinização do carisma o seu ganha-pão, ou no caso de algumas delas, o seu ganha-milhões... de dólares. E isso pela simples razão de que são mais práticas. Num certo sentido, lembram a umbanda, que permite um contato direto com os deuses da chuva. O pastor é um homem comum, que trata dos problemas mais imediatos de uma população riquíssima... em problemas. O resultado, é uma coleção de fiéis que aumenta dia a dia , juntamente com os saldos de suas contas bancárias. Mas, ao funcionário do sobrenatural, aplica-se o conselho de Max Weber: “aqueles que buscam a salvação das almas, a sua e a do próximo, não devem buscá-la nas avenidas da política”. Não dá certo. É mais fácil acreditar que um camelo passe pelo buraco de uma agulha, que água se misture ao óleo, e que políticos existam, sem falar a língua bifurcada da serpente.
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