SOBRE A CORRUPÇÃO
A corrupção é um fardo pesado demais que os homens de bem e a sociedade carregarão para todo o sempre. Adão (Adam, em hebraico), nome que deriva da palavra Terra (adamah), simboliza Humanidade, é representado na cultura hebreia pela primeira letra do alfabeto hebraico (א). Temos então a letra Yud (י) que, em seu formato, é a única que não toca na linha inferior, pois ela significa o Sagrado. Com ela se escreve o nome dO Altíssimo. Se bem observarmos a letra Alef (א), veremos que ela possui dois yud's, ou seja, o homem é imagem de Deus. Ora, se Deus é absolutamente incorruptível, sua imagem, o homem, também deveria sê-lo.
Mas porque ser humano deixou de ser uma honra para se tornar uma desculpa, eis que Adão desejou o que nao era seu, ou seja, Eva, e tendo comido do fruto da árvore proibida, tornou-se carne e como tal corruptível. É o que nos ensina o Livro dos Livros no Gênesis. Milhares de anos depois, para onde quer que olhemos veremos a chaga da corrupção enlameando tudo e todos, até mesmo homens que, em princípio, não nasceram para ser desonestos. A corrupção destrói, mata, conspurca, fere de morte a moral, a ética, o corpo e a alma.
O pior é que, por paradoxal que seja, a corrupção só existe onde não deve existir. Se não há poibição legal ou ética ela não existe E isso por uma simples razão: ela só tem sentido em países onde há clara separação entre o público e o privado, e o governante não tem o direitode se apossar do bem comum como se fosse sua propriedade pessoal. Apenas como exemplo único entre milhares, vejamos o caso do senhor Roberto Arruda, governador de Brasília apanhado com a boca na botija, digo, com a mão no saco de dinheiro oriundo do achaque a que foram submetidos não poucos empresários do Distrito Federal, teve a petulância de dizer que perdoava os que o chamaram de ladrão, como se ele fosse o mais virtuoso dos homens. Descaramento acintoso é o mínimo que se pode dizer de tal patife. E o que é pior, o senhor Lula da Silva, o nosso nada amado deficiente cultural, teve a audácia de dizer que as imagens dele e acólitos enfiando em sacos de papel, meia e cuecas o produto do saque, gravadas por câmeras de televisão, não provava nada. É estranho, curioso mesmo, que o novo deus nascido no Brasil e que nos governa sempre saia em defesa de homens "probos" como os Arrudas, Dantas, Dirceus, Genoínos, Valérios, Palloccis, Collors e outros, digamos, assim, amigos do peito.
A confusão, a mistura do público e do privado já era malvista desde Roma e Atenas antigas, e conheceu o repúdio cada vez maior no Ocidente, desde a Idade Média. O que mais dói ver, é que a culpa de tudo isso é exclusivamente nossa, o povo, pois somos nós que a cada ano eleitoral os elegemos e o que é pior, os reelegemos. Tem-se então como consequência a miséria física e moral e a certeza de que nos países islâmicos, a função do carrasco é hereditária. No Brasil, eletiva.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
DE JUSTIÇA E SABEDORIA
DE JUSTIÇA E SABEDORIA
Diz o Livro dos Livros que aqueles que governam a terra, devem amar a justiça. Mas os que governam a terra, devem procurar antes de mais nada a sabedoria, que só atinge o seu ponto mais alto quando acompanhada da busca pela justiça. Lembrem-se, senhores governantes e donos do mundo, a sabedoria não entra na alma daquele que pratica o mal e nem habita no corpo daquele que é escravo do pecado. O caminho da retidão ensina que todos, principalmente os governantes, devem fugir da fraude, da insensatez e da prática da injustiça. Se a sabedoria de Deus é a maior expressão da justiça, significa dizer que o governante justo e sábio norteia seu caminho pela senda do bem e propicia o bem estar de todos sob sua suserania.
Diz ainda o Livro Sagrado que a sabedoria é um espírito amigo, mas que não deixa impune aqueles que se voltam contra ela, porque ela, a sabedoria, está em todos os lugares e seus ouvidos captam até mesmo o mais leve sussurro e dá a justa recompensa a quem a tem no umbral de sua porta, seja essa porta a de um palácio, seja a porta do mais humilde casebre entre quantos hajam neste planeta dos homens.
A propósito, as eleições vêm aí. Lembrando César, ai dos que mentirem para o povo, dos que o enganarem com as falsas promessas ditas pela língua bifurcada da serpente. Ai dos fraudadores, dos enganadores, dos que tiram para si, o que era destinado a uma população tão carente, tão sofrida, tão doente, tão faminta, tão sem nada, absolutamente nada, exceto a esperança de que amanhã tudo pode ser diferente. Não esqueçam que foi a tentação de Adão que nos corrompeu, foi o desejo exacerbado de uma mulher diferente das de sua raça que fez Holofernes perder, literalmente, a cabeça para a judia Judith. Não esqueçam que a boca mentirosa mata a alma e a palavra “male dicta” não fica sem o justo castigo.
Não devem esquecer os senhores candidatos que uma antiga história hebréia, conta que Daniel, por ser nobre, foi levado por Nabucodonosor para “o cativeiro da Babilônia”. E há uma um episódio em que faz uma profecia para o reino de Baltazar, quando aparecem, misteriosamente, três palavras indecifráveis na parede do palácio real, no qual estava acontecendo uma festa. A frase era a seguinte: “menê, tequel e perês”, mantendo o significado de “contado, pesado e separado.” Tais palavras foram interpretadas por Daniel como: Deus “contou”os anos de teu reinado (menê), e nele está pondo um fim; foste “pesado” na balança, e considerado em falta (tequel); teu reino vai ser ser dividido e entregue aos medos e persas (perês ou plural parsim) . Na mesma noite houve a invasão do medo Dario que se tornou rei.
Do mesmo modo, todos os candidatos vão ser contados, pesados e separados, ou seja, vão ser “menê, tequel e perês) pelos eleitores. E quem quiser, não acredite, mas nossa vida é contada (nosso tempo de vida); pesada (o peso de nossas ações, boas ou más) e separada deste corpo que nos aprisiona para que possamos nos dirigir ao Hades (Inferno) ou ao Shiquinah (o lugar da Presença Divina, em hebraico), também conhecido entre nós como Céu ou Campos Elísios.
E se isso é verdade na vida diária de cada um, muito mais verdadeira é, quando aplicada no terreno movediço da política.
Portanto, hajam com sabedoria porque se assim fizerem, serão considerados justos. Não esqueçamos que a sabedoria é o sentido da vida e a justiça é imortal. Quem não acreditar, ouvirá no “after day” eleitoral, choro e ranger de dentes. Mas aí, será tarde demais.
Diz o Livro dos Livros que aqueles que governam a terra, devem amar a justiça. Mas os que governam a terra, devem procurar antes de mais nada a sabedoria, que só atinge o seu ponto mais alto quando acompanhada da busca pela justiça. Lembrem-se, senhores governantes e donos do mundo, a sabedoria não entra na alma daquele que pratica o mal e nem habita no corpo daquele que é escravo do pecado. O caminho da retidão ensina que todos, principalmente os governantes, devem fugir da fraude, da insensatez e da prática da injustiça. Se a sabedoria de Deus é a maior expressão da justiça, significa dizer que o governante justo e sábio norteia seu caminho pela senda do bem e propicia o bem estar de todos sob sua suserania.
Diz ainda o Livro Sagrado que a sabedoria é um espírito amigo, mas que não deixa impune aqueles que se voltam contra ela, porque ela, a sabedoria, está em todos os lugares e seus ouvidos captam até mesmo o mais leve sussurro e dá a justa recompensa a quem a tem no umbral de sua porta, seja essa porta a de um palácio, seja a porta do mais humilde casebre entre quantos hajam neste planeta dos homens.
A propósito, as eleições vêm aí. Lembrando César, ai dos que mentirem para o povo, dos que o enganarem com as falsas promessas ditas pela língua bifurcada da serpente. Ai dos fraudadores, dos enganadores, dos que tiram para si, o que era destinado a uma população tão carente, tão sofrida, tão doente, tão faminta, tão sem nada, absolutamente nada, exceto a esperança de que amanhã tudo pode ser diferente. Não esqueçam que foi a tentação de Adão que nos corrompeu, foi o desejo exacerbado de uma mulher diferente das de sua raça que fez Holofernes perder, literalmente, a cabeça para a judia Judith. Não esqueçam que a boca mentirosa mata a alma e a palavra “male dicta” não fica sem o justo castigo.
Não devem esquecer os senhores candidatos que uma antiga história hebréia, conta que Daniel, por ser nobre, foi levado por Nabucodonosor para “o cativeiro da Babilônia”. E há uma um episódio em que faz uma profecia para o reino de Baltazar, quando aparecem, misteriosamente, três palavras indecifráveis na parede do palácio real, no qual estava acontecendo uma festa. A frase era a seguinte: “menê, tequel e perês”, mantendo o significado de “contado, pesado e separado.” Tais palavras foram interpretadas por Daniel como: Deus “contou”os anos de teu reinado (menê), e nele está pondo um fim; foste “pesado” na balança, e considerado em falta (tequel); teu reino vai ser ser dividido e entregue aos medos e persas (perês ou plural parsim) . Na mesma noite houve a invasão do medo Dario que se tornou rei.
Do mesmo modo, todos os candidatos vão ser contados, pesados e separados, ou seja, vão ser “menê, tequel e perês) pelos eleitores. E quem quiser, não acredite, mas nossa vida é contada (nosso tempo de vida); pesada (o peso de nossas ações, boas ou más) e separada deste corpo que nos aprisiona para que possamos nos dirigir ao Hades (Inferno) ou ao Shiquinah (o lugar da Presença Divina, em hebraico), também conhecido entre nós como Céu ou Campos Elísios.
E se isso é verdade na vida diária de cada um, muito mais verdadeira é, quando aplicada no terreno movediço da política.
Portanto, hajam com sabedoria porque se assim fizerem, serão considerados justos. Não esqueçamos que a sabedoria é o sentido da vida e a justiça é imortal. Quem não acreditar, ouvirá no “after day” eleitoral, choro e ranger de dentes. Mas aí, será tarde demais.
O PARAÍSO PERDIDO
O paraíso perdido
O poeta inglês John Milton, do século 17, eternizou-se ao escrever Paradise lost (1667 - Paraíso perdido), um dos maiores poemas épicos da literatura universal. Seu leit-motiv é a justiça divina, mas o personagem dramático que domina o poema é Satã. A seguir, escreveu o Paraíso conquistado. Este é sequência e contraponto. Cristo, o segundo Adão, vem à Terra reconquistar o que o primeiro dos homens perdera.
O conflito entre o bem e o mal perseguiu Milton até o fim da vida. É uma característica própria dos que tentam entender o Universo e o homem, a partir do princípio das partidas dobradas, ou seja o princípio que diz que para o bem, se contrapõe o mal; para a vida, a morte, para o alto, o baixo, para o mau, o bom, e assim por diante.
Este conflito tem dividido o homem desde o princípio dos tempos, sobre o certo e errado, guerra e paz, homem e mulher, dia e noite, Deus e o Diabo, crime e castigo. Esse mesmo conflito deu origem às religiões, que voltadas intrinsecamente para o bem, provocaram, talvez, os maiores males que o homem poderia criar para torturar-se a si mesmo. Além dos massacres cometidos em nome de Deus, as religiões colocaram viseiras que impediram o homem de raciocinar com clareza e pudessem ver a face serena de Deus, que buscam há tanto tempo.
A nossa civilização, dita greco-romana ou judaico-cristã, está sendo substituída por valores anglo-saxões. A América tenta impingir a idéia de que é possível a extinção do mal sem a prevalência do bem, que o crime não merece castigo, que Rosseau estava absolutamente correto com sua teoria do bom selvagem, que tal qual teria este fim, perdido o Paraíso por causa do Senhor das Moscas, como algumas seitas costumam chamar Belzebu (o Demônio do Judaísmo) e que William Golding estaria errado.
Nenhuma coisa e nem outra. O homem é simultaneamente Rosseau e Golding, é bom e é mau, é Deus e Diabo. Mais Diabo do que Deus.
Nossa tragédia, é que o Paraíso perdido está fora do nosso alcance. Tentamos por isso substituí-lo pelo paraíso da impunidade. Não vai dar certo, porque a humanidade tem caminhado desde os albores dos tempos, sob a permanente ameaça de homens cruéis e brutais.
Ainda vivemos em permanente estado de guerra. E qualquer pessoa que tenha estado na guerra, sabe que o homem produz o mal como a abelha produz o mel.
Mas. sonhar não paga imposto, ainda. Quem sabe ao fim e ao cabo não nos econtremos todos, quem sabe, naquele lugar abençoado que, se não era o Paraíso, ficava a Leste do Éden. E o pior. é que não nos resta outra opção: ou habitaremos os Campos Elíseos de que falavam os gregos, ou padeceremos ad eternum no nono círculo do Inferno de Dante. Quem viver, digo, quem morrer, verá.
O poeta inglês John Milton, do século 17, eternizou-se ao escrever Paradise lost (1667 - Paraíso perdido), um dos maiores poemas épicos da literatura universal. Seu leit-motiv é a justiça divina, mas o personagem dramático que domina o poema é Satã. A seguir, escreveu o Paraíso conquistado. Este é sequência e contraponto. Cristo, o segundo Adão, vem à Terra reconquistar o que o primeiro dos homens perdera.
O conflito entre o bem e o mal perseguiu Milton até o fim da vida. É uma característica própria dos que tentam entender o Universo e o homem, a partir do princípio das partidas dobradas, ou seja o princípio que diz que para o bem, se contrapõe o mal; para a vida, a morte, para o alto, o baixo, para o mau, o bom, e assim por diante.
Este conflito tem dividido o homem desde o princípio dos tempos, sobre o certo e errado, guerra e paz, homem e mulher, dia e noite, Deus e o Diabo, crime e castigo. Esse mesmo conflito deu origem às religiões, que voltadas intrinsecamente para o bem, provocaram, talvez, os maiores males que o homem poderia criar para torturar-se a si mesmo. Além dos massacres cometidos em nome de Deus, as religiões colocaram viseiras que impediram o homem de raciocinar com clareza e pudessem ver a face serena de Deus, que buscam há tanto tempo.
A nossa civilização, dita greco-romana ou judaico-cristã, está sendo substituída por valores anglo-saxões. A América tenta impingir a idéia de que é possível a extinção do mal sem a prevalência do bem, que o crime não merece castigo, que Rosseau estava absolutamente correto com sua teoria do bom selvagem, que tal qual teria este fim, perdido o Paraíso por causa do Senhor das Moscas, como algumas seitas costumam chamar Belzebu (o Demônio do Judaísmo) e que William Golding estaria errado.
Nenhuma coisa e nem outra. O homem é simultaneamente Rosseau e Golding, é bom e é mau, é Deus e Diabo. Mais Diabo do que Deus.
Nossa tragédia, é que o Paraíso perdido está fora do nosso alcance. Tentamos por isso substituí-lo pelo paraíso da impunidade. Não vai dar certo, porque a humanidade tem caminhado desde os albores dos tempos, sob a permanente ameaça de homens cruéis e brutais.
Ainda vivemos em permanente estado de guerra. E qualquer pessoa que tenha estado na guerra, sabe que o homem produz o mal como a abelha produz o mel.
Mas. sonhar não paga imposto, ainda. Quem sabe ao fim e ao cabo não nos econtremos todos, quem sabe, naquele lugar abençoado que, se não era o Paraíso, ficava a Leste do Éden. E o pior. é que não nos resta outra opção: ou habitaremos os Campos Elíseos de que falavam os gregos, ou padeceremos ad eternum no nono círculo do Inferno de Dante. Quem viver, digo, quem morrer, verá.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
FLIP NÃO DÁ OUTRO
FLIP NÃO DÁ OUTRO
Sempre tive a veleidade de escrever. Reconheço que não escrevo bem, mas, fazer o quê, se a compulsão é maior que a minha força de vontade? Eu que sempre tive a imagem de mim mesmo como sendo pessoa desprovida da maldição da inveja, descubro horrorizado que sou um invejoso, sim. Morro de inveja de quem escreve bem. É por isso que lamento não ser um milésimo sequer de um Nelson Rodrigues, o cronista do absurdo e do patético. Lamento também, estar a léguas de distância de um Rui Guilherme de Vasconcelos Souza Filho ou de um Ruben Bemerguy, nomes que por si só dispensam apresentações, tal o seu valor humano, literário e intelectual. A mim, resta então, fazer o que me é possível: segui-los. Isto, se possível for a um quelônio seguir ou acompanhar uma lebre. É por isso que, sempre que posso, cedo o espaço desta coluna onde escrevo mal traçadas linhas para quem conhece, realmente, a arte de escrever. Hoje, o espaço vai para o meu querido amigo e grande e exemplar advogado Ruben Bemerguy. Como já disse, Bemerguy dispensa apresentações e no texto a seguir, fala de um homem de quem tive a honra e o prazer de privar da amizade. Chamava-se Moisés. Moisés Zagury, um dos primeiros empresários amapaenses que, mesmo nascido em terras longínquas, era o mais tucuju de tantos outros quanto possamos tê-los, pela firmeza de caráter, pela honestidade, pela correção, por seus princípios básicos de homem franco e trabalhador, por sua lealdade, por sua falta de ambição a valores tipicamente terrenos, e pelo amor que devotava a sua esposa, Dona Raquel Zagury, mulher de honradez e beleza a toda prova. Tão bela quanto a Raquel bíblica, por quem Jacob serviu a Labão por longos 14 anos.
O texto de Bemerguy fala de um tempo que se foi para nunca mais voltar, um tempo em que éramos tão pobres, tão belos, tão inocentes. A ele, portanto. Vale a pena recordar.
FLIP NÃO DÁ OUTRO
“Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa”.
“Chico Buarque de Holanda”
“Muito embora se possa pensar, e não sem alguma razão que me decidi por uma literatura lúgubre, digo sempre que não. Também digo não ser essa uma expressão de meu luto. Não escrevo sobre os mortos porque morreram simplesmente. O faço como quem ora, sempre ao nascer e ao pôr-do-sol, em uma sinagoga feita à mão, desenhada n’alma da mais intensa saudade. Escrevo também para que os meus mortos permaneçam vivos em mim. Morreria mais apressadamente sem a memória dos que amei tanto. É só por isso que escrevo. Porque os amei e ainda os amo.
E quando esses meu amores partem e com eles já não posso mais falar, passo, insistentemente a dialogar comigo. É um diálogo franco e, de fato, inexistente. Sempre que tento assumir a função de meu próprio interlocutor, uma súbita impressão de escárnio de mim mesmo me faz parar, e aí calo. Toco a metade de meu indicador direito, verticalmente fixo, na metade de meus lábios, como a pedir silêncio a minha insensatez. Taciturno, faço vir à memória de um tudo.
É por isso e tanto mais, que ando sempre atrasado. Demoro a escrever e quando decido o faço tão pausadamente que chego a aprender de cor todo o texto. Por exemplo, se medido o amor que tinha por meu tio Moisés Zagury, há muito me obrigava a ter escrito. Mas minha inércia não é voluntária e, por isso, não a criminalizo. Não há relação entre o tempo da morte e o tempo de escrever. A relação é de amor e é eterna. A morte e a palavra, ao contrário de mim, não se atrasam. Além disso, em minha vida andam juntas, nem que seja só em minha vida. Isso já aprendi porque as sinto frequentemente desde criança, tanto a morte quanto a palavra.
E é desde criança que lembro do tio Moisés. Lá, estive muitas vezes no colo. Pensei que adulto, isso não mais aconteceria, mas aconteceu até a última vez que o vi. No aeroporto, quieto em uma cadeira de rodas, ele ia. Tinha um olhar paciente, de contemplação, de reverência a Macapá e, sem que ele percebesse, eu em seu colo observava obcecadamente cada movimento dos olhos, queria traduzir e imortalizar aquele momento. Não consegui e até hoje tento imaginar o que o tio Moisés dizia pra cidade. Acho que tudo, menos adeus. Macapá e o tio eram inseparáveis. Essa era a terra dele e ele o homem dela. Isso é inegável. Por baixo das anáguas de Macapá ainda velejam o líquido de ambos: do tio e da cidade.
O tio conheceu a cidade cedo. Ele, moço. Ela, moça. Daí foi um passo para ser o abre-alas dela. Tinha dom. Rascunhavam-se incessantemente um ao outro. Eu os vi várias vezes passeando, trocando carícias. Ela costuma cantar para ele, enquanto ele fabricava um xarope de guaraná. O Flip. Flip guaraná. Dentro de cada garrafa havia um arco-íris. A fórmula era segredo do tio e da cidade, e até hoje o é. Por isso, só o tio conseguia pôr arco-íris em uma garrafa de guaraná. Acho mesmo que o Flip era feito da seiva da cidade. Eu o tomava gut, gut.
O Flip não foi só o primeiro guaraná produzido aqui. Não foi só também a primeira indústria. O Flip, me conta a memória, foi o cenário auditivo mais preciso da minha lembrança. Era a propaganda que anunciava promoção de prêmios a quem encontrasse no guaraná, além do arco-íris, o desenho de um copo no interior da tampinha da garrafa. O copo, sinceramente, não era minha grande ambição. O sabor estava mesmo, na propaganda que vinha pelas ondas das rádios Difusora e Educadora, se bem lembro. Era o som de um copo quebrando, esquadrinhado por uma indagação seguida da solução: “Quebrou? Flip dá outro. E dava mesmo.
Não sei se por ingenuidade da infância ou ignorância, o que aquele sorteio me fixou é que tudo era substituível. Se o copo quebra, Flip dá outro. Se a bola fura. Flip dá outra. Se a moda não pega. Flip dá outra. Se o tempo passa, Flip dá outro. Se o ar falta. Flip dá outro. Se o amor acaba, Flip dá outro.
Não me cabe agora eleger um culpado pela singeleza da minha compreensão de vida. Fico cá a suspeitar do arco-íris, e nem por isso me zango. Se me fosse permitido optar entre a idade madura e o arco-íris, escolheria o arco-íris sem piscar. Mas isso não é possível, agora eu sei. A bola fura, a moda pega, o tempo passa, o ar falta e o amor acaba. Tudo, é claro, por falta do Flip.
É um desconforto viver sem Flip. Todas as vezes que a vida me recusa, eu lembro do Flip. Mesmo assim, não digo nada a ninguém. Chamo num canto os arco-íris que conservo desde tanto, faço mimos, beijo os olhos, o rosto e sossego. Vem sempre uma chuva fina. Eu me olho e a guardo. Guardo muitas chuvas. Quando se guarda bem guardadinha, a chuva não dói. Só dói é saber que Flip não dá outro. Poxa, quanta saudade do meu tio".
Sempre tive a veleidade de escrever. Reconheço que não escrevo bem, mas, fazer o quê, se a compulsão é maior que a minha força de vontade? Eu que sempre tive a imagem de mim mesmo como sendo pessoa desprovida da maldição da inveja, descubro horrorizado que sou um invejoso, sim. Morro de inveja de quem escreve bem. É por isso que lamento não ser um milésimo sequer de um Nelson Rodrigues, o cronista do absurdo e do patético. Lamento também, estar a léguas de distância de um Rui Guilherme de Vasconcelos Souza Filho ou de um Ruben Bemerguy, nomes que por si só dispensam apresentações, tal o seu valor humano, literário e intelectual. A mim, resta então, fazer o que me é possível: segui-los. Isto, se possível for a um quelônio seguir ou acompanhar uma lebre. É por isso que, sempre que posso, cedo o espaço desta coluna onde escrevo mal traçadas linhas para quem conhece, realmente, a arte de escrever. Hoje, o espaço vai para o meu querido amigo e grande e exemplar advogado Ruben Bemerguy. Como já disse, Bemerguy dispensa apresentações e no texto a seguir, fala de um homem de quem tive a honra e o prazer de privar da amizade. Chamava-se Moisés. Moisés Zagury, um dos primeiros empresários amapaenses que, mesmo nascido em terras longínquas, era o mais tucuju de tantos outros quanto possamos tê-los, pela firmeza de caráter, pela honestidade, pela correção, por seus princípios básicos de homem franco e trabalhador, por sua lealdade, por sua falta de ambição a valores tipicamente terrenos, e pelo amor que devotava a sua esposa, Dona Raquel Zagury, mulher de honradez e beleza a toda prova. Tão bela quanto a Raquel bíblica, por quem Jacob serviu a Labão por longos 14 anos.
O texto de Bemerguy fala de um tempo que se foi para nunca mais voltar, um tempo em que éramos tão pobres, tão belos, tão inocentes. A ele, portanto. Vale a pena recordar.
FLIP NÃO DÁ OUTRO
“Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa”.
“Chico Buarque de Holanda”
“Muito embora se possa pensar, e não sem alguma razão que me decidi por uma literatura lúgubre, digo sempre que não. Também digo não ser essa uma expressão de meu luto. Não escrevo sobre os mortos porque morreram simplesmente. O faço como quem ora, sempre ao nascer e ao pôr-do-sol, em uma sinagoga feita à mão, desenhada n’alma da mais intensa saudade. Escrevo também para que os meus mortos permaneçam vivos em mim. Morreria mais apressadamente sem a memória dos que amei tanto. É só por isso que escrevo. Porque os amei e ainda os amo.
E quando esses meu amores partem e com eles já não posso mais falar, passo, insistentemente a dialogar comigo. É um diálogo franco e, de fato, inexistente. Sempre que tento assumir a função de meu próprio interlocutor, uma súbita impressão de escárnio de mim mesmo me faz parar, e aí calo. Toco a metade de meu indicador direito, verticalmente fixo, na metade de meus lábios, como a pedir silêncio a minha insensatez. Taciturno, faço vir à memória de um tudo.
É por isso e tanto mais, que ando sempre atrasado. Demoro a escrever e quando decido o faço tão pausadamente que chego a aprender de cor todo o texto. Por exemplo, se medido o amor que tinha por meu tio Moisés Zagury, há muito me obrigava a ter escrito. Mas minha inércia não é voluntária e, por isso, não a criminalizo. Não há relação entre o tempo da morte e o tempo de escrever. A relação é de amor e é eterna. A morte e a palavra, ao contrário de mim, não se atrasam. Além disso, em minha vida andam juntas, nem que seja só em minha vida. Isso já aprendi porque as sinto frequentemente desde criança, tanto a morte quanto a palavra.
E é desde criança que lembro do tio Moisés. Lá, estive muitas vezes no colo. Pensei que adulto, isso não mais aconteceria, mas aconteceu até a última vez que o vi. No aeroporto, quieto em uma cadeira de rodas, ele ia. Tinha um olhar paciente, de contemplação, de reverência a Macapá e, sem que ele percebesse, eu em seu colo observava obcecadamente cada movimento dos olhos, queria traduzir e imortalizar aquele momento. Não consegui e até hoje tento imaginar o que o tio Moisés dizia pra cidade. Acho que tudo, menos adeus. Macapá e o tio eram inseparáveis. Essa era a terra dele e ele o homem dela. Isso é inegável. Por baixo das anáguas de Macapá ainda velejam o líquido de ambos: do tio e da cidade.
O tio conheceu a cidade cedo. Ele, moço. Ela, moça. Daí foi um passo para ser o abre-alas dela. Tinha dom. Rascunhavam-se incessantemente um ao outro. Eu os vi várias vezes passeando, trocando carícias. Ela costuma cantar para ele, enquanto ele fabricava um xarope de guaraná. O Flip. Flip guaraná. Dentro de cada garrafa havia um arco-íris. A fórmula era segredo do tio e da cidade, e até hoje o é. Por isso, só o tio conseguia pôr arco-íris em uma garrafa de guaraná. Acho mesmo que o Flip era feito da seiva da cidade. Eu o tomava gut, gut.
O Flip não foi só o primeiro guaraná produzido aqui. Não foi só também a primeira indústria. O Flip, me conta a memória, foi o cenário auditivo mais preciso da minha lembrança. Era a propaganda que anunciava promoção de prêmios a quem encontrasse no guaraná, além do arco-íris, o desenho de um copo no interior da tampinha da garrafa. O copo, sinceramente, não era minha grande ambição. O sabor estava mesmo, na propaganda que vinha pelas ondas das rádios Difusora e Educadora, se bem lembro. Era o som de um copo quebrando, esquadrinhado por uma indagação seguida da solução: “Quebrou? Flip dá outro. E dava mesmo.
Não sei se por ingenuidade da infância ou ignorância, o que aquele sorteio me fixou é que tudo era substituível. Se o copo quebra, Flip dá outro. Se a bola fura. Flip dá outra. Se a moda não pega. Flip dá outra. Se o tempo passa, Flip dá outro. Se o ar falta. Flip dá outro. Se o amor acaba, Flip dá outro.
Não me cabe agora eleger um culpado pela singeleza da minha compreensão de vida. Fico cá a suspeitar do arco-íris, e nem por isso me zango. Se me fosse permitido optar entre a idade madura e o arco-íris, escolheria o arco-íris sem piscar. Mas isso não é possível, agora eu sei. A bola fura, a moda pega, o tempo passa, o ar falta e o amor acaba. Tudo, é claro, por falta do Flip.
É um desconforto viver sem Flip. Todas as vezes que a vida me recusa, eu lembro do Flip. Mesmo assim, não digo nada a ninguém. Chamo num canto os arco-íris que conservo desde tanto, faço mimos, beijo os olhos, o rosto e sossego. Vem sempre uma chuva fina. Eu me olho e a guardo. Guardo muitas chuvas. Quando se guarda bem guardadinha, a chuva não dói. Só dói é saber que Flip não dá outro. Poxa, quanta saudade do meu tio".
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