segunda-feira, 3 de maio de 2010

CONTRADIÇÕES

O ser humano, antes de mais nada, é um ser extremamente contraditório. Vejamos, por exemplo, o que fez Adamat, o primeiro homem, segundo a Bíblia. Vivendo e morando no Jardim do Éden, e tendo a possibilidade da vida eterna, insatisfeito, decidiu optar pela finitude própria*, pelo castigo de  trabalhar todos os dias para poder comer o pão que o diabo amassou, muito embora não esteja escrito em lugar algum, que o diabo tenha sido padeiro algum dia.**
Outro homem, este muito importante, mas extremamente contraditório, foi o rei hebreu Salomão, cognominado o mais sábio dos homens. Até onde vai o meu analfabetismo explícito, não me consta que sábios matem ou ordenem a morte de irmãos ou demais parentes que possam de algum modo, atrapalhar seu caminho em direção a um eventual trono. E foi exatamente o fez ou mandou fazer Salomão, até que não mais restasse ninguém que se interpusesse em seu desejo de ser rei de Israel.
Caim, filho de Adão, é outro exemplo de contradição. Irmão de Abel, permitiu que a inveja dominasse seu coração e por isso matou seu frater. Nessa época, tempo em que os homens falavam com Deus ao vivo e em cores, Caim perdeu esse privilégio, foi amaldiçoado pelo próprio Senhor dos Exércitos, escorraçado do lugar em que vivia, e condenado a perambular pelo planeta dos homens, sem ter um amigo, sem ter um lugar onde pudesse a fronte pousar, exposto ao tempo e ao vento, padecendo os maiores tormentos, fugitivo dos homens na paz, e também da morte na guerra, como bem poderia ter dito Gonçalves Dias em seu I-Juca-Pirama. E tudo isso apenas por ser um homem pleno de contradições.
Moisés é outro exemplo de como os homens podem pagar um preço alto demais por serem contraditórios em seu modo de ser. Após receber das mãos do próprio Deus e Senhor de tudo o que há, as Tábuas da Lei, também conhecida como Os Dez Mandamentos, foi o primeiro a contrariar o artigo que diz: "Não matarás". O artigo ou mandamento, como preferirem, que diz "Não matarás", é seco, sintético, limpo. Diz apenas, "Não matarás" e ponto final. Não consta que ordenasse, "Não matarás", exceto em caso de defesa própria ou de outrem; exceto se fores filho do deputado A ou B, ou do senador C ou D, ou ainda do empresário X ou Y. Diz apenas, não matarás. E foi isso, exatamente que fez o próprio Moisés ao descer do alto do Monte Sinai, lugar de seu encontro com Deus, ao mandar passar a fio de espada algo em torno de 3.000 homens que fizeram e adoraram o Bezerro de Ouro, durante sua ausência, descrentes de Deus e dos homens. Por causa disso, Moisés pagou o preço de não pisar na Terra Prometida, passando a Josué seu cajado e avistando a terra de Israel apenas de longe. Além disso, seu povo foi condenado a vagar durante 40 anos pelo deserto, até que toda aquela geração fosse extinta. Um preço alto demais apenas por causa do espírito contraditório de um homem da mais alta importância para toda a história do homem ocidental.
A lista é interminável. Hitler, que deu o pontapé inicial na Segunda Guerra Mundial, mandou que fossem exterminados em fornos crematórios e outras formas de execução em massa, pelo menos seis milhões de judeus. O problema é que, além da monstruosidade do crime praticado em nome da raça ariana ou germânica, Hitler não era alemão, era austríaco. E, segundo afirmam diversos historiadores, tinha remota ascendência judaica.
Finalmente, para não cansar muito meus eventuais leitores, muitas pessoas, tendo a possibilidade de serem livres, tornam-se prisioneiras de si mesmas ou de outrens por vontade própria, porque, como dizia Nietsche, "chegam à convicção fundamental de que têm de ser comandadas, e por causa disso, tornam-se "crentes". Inversamente, pode-se imaginar um prazer e força na autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despe de toda crença, todo desejo de certeza, treinado que é em se equilibrar sobre tênues cordas e possibilidades e em dançar até mesmo à beira de abismos. Um tal espírito seria o espírito livre por excelência."
 
PS.:

* Adão, ao optar pela própria finitude, condenou todos os seus descendentes a serem finitos "ad infinitum", assim como condenou à morte, toda e qualquer forma de vida.
 
** A parte boa dessa história é que Adão, ao comer do fruto proibido, cometeu o mais doce dos pecados.

sábado, 1 de maio de 2010

UM CACHORRO COM NOME E SOBRENOME

Alguém me perguntou certa vez: para que serve um cachorro? A resposta veio imediata, clara e límpida: para amar.
Um cachorro, o seu cachorro, é o espelho da alma do seu dono. Há uma estranha simbiose entre um cachorro e seu dono. Há amor. Talvez o mais puro de todos os tipos de amor que possam existir, porque não há o preço do desejo, que no mais das vezes, é a morte do amor desejado.
O cachorro talvez tenha sido colocado no mundo, para refletir a humanidade que não temos, perdida que foi no embate de milênios do homem contra o próprio homem. Ninguém, por muito amor que tenha para dar, conseguirá exprimir no olhar, o ar de adoração que tem o cachorro pelo seu dono, seu rei e seu deus.
Tivesse Deus por parte dos homens, um pouco, um pouquinho só, da fé, do amor cego e irrestrito, da lealdade, da adoração verdadeira que tem o cão por seu dono, e com certeza seria um Deus mais feliz. E por sê-lo, não descarregaria sobre os homens o peso da Sua frustração, punindo-nos por não sabermos dar-Lhe o que quer, pois somos apenas homens e o amor perfeito é dádiva concedida exclusivamente ao cão.
Tive um cão. Chamava-se Xuxu. Xuxu Bezerra. Era um cachorro com nome e sobrenome. A maldade inata dos homens mandou-o antes do tempo, para os eternos campos de caça. Viveu e me ensinou a viver por dez anos, tornando-me melhor.
Dez anos apenas. Foi pouco para conter a imensidão do amor que tinha para dar. Meu coração, tantos anos passados, teve que dobrar de tamanho. Tenho agora uma cadela. Chama-se Duda. Duda Bezerra. Igual a Xuxu, é uma cachorra também com nome e sobrenome. Duda ainda não sabe que Xuxu existiu. Talvez desconfie. Cachorros sabem de coisas que nós sequer podemos supor.
Um dia nos encontraremos os três. Duda, Xuxu e eu. Agrada-me a idéia de vê-los casados. Eu, de minha parte, já a prometi a ele.
Nos eternos campos de caça, Xuxu já deve ter demarcado área para a minha tenda. Caçaremos os três juntos. Eles reproduzirão e encherão o céu de cachorrinhos felizes por amarem e serem amados. Acredito que a luz das estrelas, bem pode ser os olhos brilhantes de milhões de cachorros, enchendo o universo do amor infinito que nos envolve.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

UM HOMEM CHAMADO JESUS

É curioso notar que alguns cristãos, sejam católicos apostólicos romanos, protestantes, independetemente da seita professada, católicos ortoxos gregos, russos ou católicos maronitas, ou ainda de qualquer outra natureza, não gostam de judeus pelas mais diversas razões. Razões essas, que só fazem sentido do ponto de vista exclusivo deles.
No entanto, por serem rotulados genericamente cristãos, isso significa que são adoradores do homem chamado Jesus, Jesus Nazareno ou Jesus Cristo ou Jesus, o belemita. No entanto, essas mesmas pessoas parecem esquecer que Jesus, além de arameu, era também judeu.
Esse homem, dotado de um cerébro poderosíssimo, recebeu esse nome do grego Iesous que é, na verdade, a forma he-lenizada do aramaico Yeshuah. O verdadeiro nome de Jesus, pelo qual o povo e seus discípulos o chamavam era, portanto, Yeshuah, que poderia ser traduzido como "a salvação de Javé", ou "aquele enviado por Javé para nos salvar".
O outro nome, Cristo, também vem do grego: christos, isto é, "o ungido", correspondente ao hebraico “messiah”. Jesus também é chamado de Emanuel ou Imanuel, no termo derivado do aramaico Imman-el, ou "Deus Conosco". O nome Emanuel foi a ele atribuído por causa da profecia de Isaías 7:14. O profeta diz que a vinda do Messias seria anunciada por um sinal divino: ele nasceria de uma virgem e se chamaria Emanuel. Os cristãos crêem que Jesus é o messias, o christos profetizado no Velho Testamento, que através de sua vida, morte e ressureição restaurou sua comunhão com Deus. Sustentam também que Jesus é a Palavra Eterna (Logos) que encarnou como homem e que aqueles que nele crêem conquistarão a vida eterna.
Sua mensagem espalhou-se por todo o Império Romano, em uma versão, atualmente chamada de cristianismo de Nicéia, mas foi somente sob Teodósio I, que o cristinianismo se tornou a religião ofical dos romanos.
A figura desse homem é tão extraordinária, que até mesmo os budistas se inspiram no exemplo de Cristo. O 14° Dalai Lama, Tenzing Giatso, por exemplo, diz que Jesus é um “bodhisatva”, isto é, um ser que dedicou sua vida ao florescimento da humanidade. Até mesmo os muçulmanos, tradicionais inimigos do povo judeu, acreditam que Jesus foi um dos mais importantes profetas de D’us.
Nesse contexto, podemos dizer que o Homem de Nazaré foi um autêntico e verdadeiro revolucionário, porque sua opção preferencial foi sempre pelos mais fracos, pelos doentes, pelos mais pobres, pelas crianças, pelas prostitutas e prisioneiros, ao contrário do comportamento até então adotado, cuja opção era pelo mais saudável, pelo mais forte, pelo mais poderoso, pelo maior.
O legado de Jesus, deixa a visão de um Deus como um pai amoroso e misericordioso, sempre disposto a perdoar os pecados da humanidade. Sobre sua infância sabe-se muito pouco. Mas, sobre o tempo em que durou o ministerio de Jesus, di-z-se que ele pregou durante três pesach, a Páscoa dos judeus inferindo, segundo um estudioso contemporâneo, que o Nazir ensinou por pelo menos dois anos e dois meses. Os Evange-lhos Sinóticos, isto é, de Marcos, Lucas e Mateus, sugerem um espaço de tempo ainda menor, apenas de um ano. Também é importante que se saiba sobre esse homem extraordinário, que Jesus teria sido um essênio, ou ligados a eles. Como sabemos todos, os essênios eram ascetas apocalípticos.
Presumidamente analfabeto, Jesus, possivelmente era poliglota. Isso porque falava o arameu, sua língua natal. Também falava hebraico porque judeu. E latim, para se comunicar com os romanos e grego, com a elite e os mercadores.
Uma coisa é certa: esse homem fantástico conseguiu uma proeza única. Dividiu o tempo entre antes e depois dele. Isso por si só, já bastaria para fazer dele, independentemente do seu lado divino, o maior de todos os homens.

terça-feira, 27 de abril de 2010

pequenos textos III

Como em duas vezes antes, hoje volto a apresentar aos meus seis leitores, aquilo a que dou o nome de “Pequenos textos”. É Claro que são produtos de minha mente um tanto quanto surrealista. Fazer o quê, se tenho esse viés, digamos literário. O único pedido vai por conta da minha falta de humildade: se não gostarem, pelo menos não odeiem. Reconheço em mim, uma certa maluquês. Mas, fazer o quê, se assim sou?
- Incompreensão A boneca olha a menina que lhe faz declarações de amor. Diz ser sua mamãe. Que mãe estranha essa, que se movimenta tanto, que não sabe que bonecas, gostam mesmo é de silêncio, de imobilidade, de olhos vítreos que nada vêem, e que têm naquela espécie de morte, a sua única razão de viver -

Lágrimas perdidas

Conforme fora prometido, seguiu as pegadas na areia que indicariam o lugar onde encontraria porto seguro. Depois de muito andar, encontrou o oceano onde poderia fundear em segurança, o barco de sua vida tempestuosa.
É verdade que encontrou o que lhe fora prometido. Mas, quem entenderia sua tristeza, ao descobrir que o oceano de águas salgadas em que aportara, eram apenas as lágrimas que derramara, ao longo de uma existência perdida?
- Uma questão de
Tempo!

A palavra desceu sobre ele como um container que desaba em cima do portuário. Pra dizer a verdade, o impacto real não se deveu à palavra tempo, mas ao seu significado. Melhor ainda, talvez nem fosse uma questão de significado. Talvez tivesse sido a importância dele na vida - qualquer vida -, que é absolutamente limitada por ele.

4 - Sina de pai

Dono de um passado cheio de culpas,
Lá vai ele, o pai,
Curvado, cansado, esmagado,
A caminho da morte sofrida,
Enquanto espera perdão,
De filhos que não virão,
Ocupados que estão,
A caminho da vida - Hai-Kai

A ironia,
É que nada é mais prosaico
Que o simples e judaico
Nome de Maria

6 - Sono Eletrônico

A televisão olhou para
O homem deitado na cama.
Desligou-o
E foi dormir
O seu sono eletrônico


O Caçador

O Homo Sapiens,
Voltou da caçada.
Guardou a lança
Na parede da caverna.
Ligou o ar condicionado
E dormiu o sono
Do homem primitivo.