quinta-feira, 29 de julho de 2010

O MEDROSO

Era um medroso nato. Literalmente, nascera com medo de tudo o que há. E essa foi a sua tragédia. Neste mundo cão não há espaço para os fracos, os covardes, os ineptos, os lentos, os ineficientes, os deficientes, exceto se o deficiente for um leão, que este sim, atemoriza a todos até mesmo quando combalido pela doença ou pelas feridas recebidas em uma vida de lutas pela sobrevivência. Leões atemorizam até mesmo depois de mortos. Poucos são os homens leões. A maioria, apenas ratos, hienas ou vacas de presépio. Aquele homem medroso era uma espécie de rato, daqueles que fogem para seus tugúrios ao menor ruído, que se refugiam, tal qual todo covarde que se preza, no mundo das sombras.
O homem medroso tinha medo de tudo. Medo da luz, medo da escuridão, medo de ficar sozinho e medo de multidões, medo de beber e medo de comer. Tudo podia fazer-lhe mal, angustiava-se. Não suportava a ideia de casar. O que não poderia acontecer-lhe se casasse com uma mulher má? Daquelas que botam azeite quente no ouvido do marido quando ele se entrega aos braços de Morfeu? Não. Mulheres na sua vida pacata e segura, nem pensar.
Mas o destino, ah!, o destino. Talvez nem tenha sido o destino. Quem sabe um demônio? Demônios, como se sabe, têm por diversão predileta, pregar peças em pobres e desavisados humanos. Principalmente dos que tem medo de tudo. E foi por isso que, desavisado, apaixonou-se por uma bela mulher. Daquelas que prometem tudo e realizam muito mais. Daquelas que fazem Messalina parecer anjo de candura e inocência. Só podia ser coisa do "dêmo", diziam, benzendo-se, as velhas beatas e fofoqueiras da pequena cidade em que vivia o homem medroso. 
Foi por isso que o homem que sentia medo de tudo decidiu que era tempo de se ir deste maldito planeta onde tudo o atemorizava. Menos mal que, cônscio de seus deveres, não planejou uma morte rápida. Daquelas tipo tiro na cabeça. Sua fiel empregada doméstica não merecia a tarefa imunda de juntar-lhe os miolos e lavar lençóis, paredes e o piso que ficariam impregnados com parte de seus miolos, ossos, cabelos e sangue. Muito sangue. Preferiu uma morte lenta. Por estranho que pareça, isso não o atemorizou. Sentiu-se até mesmo tranquilo e esboçou um sorriso. Ninguém sentiria sua falta Não tinha, mesmo, nenhuma importância para ninguém. Preparou a cama. Era preciso partir com dignidade, uma vez que vivera a vida de maneira indigna. Não é digno o homem que treme diante de outro homem. E como ele temera e tremera diante dos homens, da vida, de tudo...
Sentou-se à beira da cama recoberta de alvos lençóis, pegou a afiada navalha que comprara para aquele fim e, num rápido golpe viu o sangue, o seu sangue, manchar de rubro a água tépida que colocara na bacia ao seu lado. Não gritou. Sequer gemeu. Sentiu frio. Sabia que o frio antecede a morte. Deu, outra vez, um pálido sorriso e sentiu a escuridão que se aproximava veloz, de seus olhos, de seu cérebro, deletando-o definitivamente da vida e o mandando de volta para o reino do negror absoluto que havia antes de ser gerado num ventre de mulher.
Pobre homem medroso. Merece ele todas as nossas lágrimas, toda a nossa piedade, porque morreu sem saber que ela, a morena dos lábios com sabor de mel de abelha, morreu de velhice, esperando por ele de braços abertos. Morreu sem saber que, para ela, ele era o seu sonho, sua quimera, seu elo perdido, que nunca faria aliança com ela, como é o destino dos homens. Menos dos homens covardes como ele.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

UM HOMEM CHAMADO JOSÉ

Perdido na imensidão do cosmos, um planeta revoluteava em giros tristes e solitários. Ficara assim desde que a solidão o tornou diferente dos demais planetas e das super novas, estrelas cheias de brilho, luz e vigor, que caminham pelo negror do Universo, acreditando que suas luzes durarão para sempre.
Aquele triste planeta, além de não ter luz própria, perdera o pouco que refletia, quando seu guia, o Sol, desabou para dentro de si mesmo, cansado por quatro bilhões de anos de fulgor constante. Quatro bilhões de anos é tempo demais, até mesmo para uma estrela que um dia pensou ser eterna. Ainda bem que pensou errado. A eternidade é cansativa demais.
Mas, aquele planeta já tivera seus momentos de beleza sideral. Consta que selenitas encantados, encantavam suas encantadoras mulheres, cantando melodias tiradas de muito além das nossas limitadas sete notas musicais. Nesses momentos, a Via Láctea quedava-se, muda de prazer, nas noites de Terra cheia.
Dizem também, que num certo sentido, o planeta já tivera uma espécie de luz própria. Fora há muito tempo. Um tempo tão distante, que quase se perdera na história do tempo. Essa luz resultara de uma prosaica história de amor. Não o amor paixão, o amor erótico, o amor cama, o amor frenesi, o amor loucura, o amor orgasmo. Esse não. Esse era o amor diferente. Um amor feito de calma, de ternura, de bem querer, de amizade. Um amor de pureza. Esta é a história de amor de um homem chamado José.
José foi para aquele planeta, o símbolo da humildade e da submissão a uma vontade superior, que não entendia, mas perante a qual se curvava, porque sabia que seu destino estava traçado nas estrelas, muito antes sequer da possibilidade de existirem. Tanto ele quanto as estrelas.
Herdeiro de Davi em linha direta, não conhecia o orgulho ou a ambição. Era, antes de mais nada, um homem simples. Um puro de coração. Talvez tenha sofrido silenciosamente diante da dúvida que um dia, o demônio do ciúme tentou destilar em seu coração. Mas foi só um segundo. Como duvidar da mulher que amara sobre todas as coisas, e que fora escolhida para um destino maior que o seu?
Os anos passaram, José envelheceu e morreu poucos anos depois de seu filho, condenado à morte aos 33 anos. Seu coração sangrou tanto, que por um momento pensou não resistir a tanta dor. Mas crente na recompensa do amor, não vacilou. Acreditou e amou Maria até o final dos tempos que ainda não chegaram.
Uma história antiga, que só os privilegiados selenitas encantados conhecem com detalhes, diz que, se por ventura, em algum lugar, alguém conseguir ver dois cometas brilhantes, lado a lado, verá também as figuras de um homem e uma mulher, de mãos dadas, passeando pelo infinito, enquanto seu filho, Jesus, cuida da administração do Universo.

UM ASSALTO DIFERENTE

A manchete estava lá, na tela do computador. A internet tem dessas vantagens, para quem é bisbilhoteiro profissional, também conhecido na roda dos que se levam demasiadamente a sério como jornalistas. “Gangue de palhaços assalta bar no Reino Unido”, dizia o título da matéria. A fonte era mais que fidedigna: - a própria Reuters, em Londres, dava detalhes do assunto.
“A polícia da cidade de Manchester, no norte da Inglaterra, buscava informações que a levasse a uma gangue de palhaços que assaltou um bar do município.”
Três homens vestidos com fantasias de palhaços, algemaram um gerente e o ameaçaram com uma arma e uma faca antes de escapar com “uma pequena quantidade de dinheiro”. “Essa é uma equipe altamente organizada, que obviamente gastou um bom tempo planejando o assalto”, disse em um comunicado o detetive Darren Shenton. “A gangue fugiu em uma van, e escapou de uma perseguição policial, mesmo se envolvendo em três acidentes no caminho.”
É verdade, no Brasil somos diferentes. Para um assalto bem sucedido, primeiro é preciso se eleger para um cargo qualquer. Depois, é necessário que o cofre seja bem gordo. Mais ou menos no modelito ‘porquinho’ da vovó. É fundamental que o acusado de praticar o furto, desvio, estelionato ou que outro nome se queira dar, alegue inocência até à morte. Se, além de jurar inocência e for acusado depois de cumprido o mandato, é conveniente que diga ser um reles desempregado. É preciso que se leve o eleitor, digo, o leitor às lágrimas. Quem sabe, uma peninha aqui, um pingo de piedade acolá, não se dá um novo cargo eletivo ao acusado? No Brasil, afinal de contas, tudo é possível.
A propósito, mais uma diferença importante entre o povo tupiniquim e os bretões: lá, os palhaços são assaltantes. Aqui, assaltados.

terça-feira, 27 de julho de 2010

UM MUNDO PERFEITO

Como seria o mundo se cumpríssemos, todos, a lei? Sem discussões, sem arrazoados, sem desculpas, sem alegar desconhecimento? A lei existe? Então que seja cumprida. Só isso, sem tergiversações.
Mas, perguntará o leitor. Que leis devemos cumprir, uma vez que existem leis que, se por um lado são legais, por outro, são profundamente injustas? A pergunta é pertinente, pela simples razão de que realmente é assim que acontece. E mais: na sua maioria, deixam brechas, aberturas, furos, por onde passam os desonestos da vida, desde que tenham advogado de competência - e preço - máximos que possam, com habilidade, burlá-las, ficando na impunidade que assola este país desde sempre.
Mas, ainda que pareça utopia, existe, sim, a possibilidade de um mundo perfeito. Um mundo sem violência de qualquer natureza, um mundo sem furtos, roubos, estelionatos, assalto ao Erário e outros modos de surrupiar de outrem, aquilo que não lhe pertence. Existe, sim, um mundo onde um homem não desejará aquilo que não é seu, nem sua mulher, nem seu escravo, nem sua casa e nem nada que não lhe pertença.
É possível habitarmos um mundo onde suas leis podem ser resumidas em apenas duas. A primeira, pode-se dizer: “Amarás a Deus Todo Poderoso (YHWH), de toda a tua alma, de todo o teu coração, com todas as tuas forças e sobre todas as coisas. Ela está presente nas Tábuas da Lei, entregues pelo próprio Elohim a Moisés. Atende pelo nome de “Os Dez Mandamentos”.
A outra, que poderia ser chamada de o undécimo mandamento, foi dada por Jesus (Yeshuah). E é muito simples. Diz assim: amarás ao teu próximo como a ti mesmo.”
Simples, não? Essas leis existem há milênios. No entanto, de forma irracional, insisitimos em não cumpri-las em absolutamente nada.
E a pergunta que se faz necessária é: em assim agindo, temos o direito de reclamar da sorte que temos, dos sofrimentos que padecemos, e do mundo em que vivemos?
A resposta inevitável é: não.