O rapaz acordou espantado. Olhou em volta e não reconheceu o lugar, muito embora tudo o que o rodeava não lhe parecesse estranho. Tentou levantar-se. Sentiu dificuldades. O corpo parecia-lhe mais cansado que o usual. Com muito esforço saiu da cama e dirigiu-se, levemente encurvado, em direção ao banheiro. Um banho e tudo ficará melhor, pensou. Foi quando se olhou no espelho e se assustou. Não! Pensou estarrecido, aquilo não podia ser verdade! Devo estar sonhando, disse a si mesmo. Melhor dizendo, devo estar tendo algum pesadelo. Tranquilizou-se com a ideia. Daqui a pouco acordaria e tudo seria apenas uma lembrança ruim, consolou-se. Mas, notou que o sonho - ou pesadelo - parecia-lhe real demais para não ser real. Olhou-se novamente no espelho. Muito embora ele continuasse sendo ele, o aspecto era de um homem velho. Velho e terrivelmente cansado. Cansado de viver, cansado de tantos sonhos perdidos, tantas falsas ilusões, tantas quimeras que ficaram na estrada da sua vida já tão gasta, tão rota, tão inútil. Não lembrava bem se ainda tinha filhos. Mulher, com certeza, não tinha mais. Tinha consciência que mulheres não gostam de homens tão velhos, tão desgastados na luta inútil da sobrevivência.
A clareza do que ocorrera começou a tomar conta de si. Teve vontade de chorar. Seria tão mais fácil não acordar mais. Acreditara durante tanto tempo que o sono é a morte na certeza do acordar, que até desejava o contrário. Quando o grande cansaço se apossa do corpo, da mente e da alma, sabe-se que é tempo de partir. Que bom seria, pensou, se os homens fizessem como os velhos elefantes africanos, que sabem quando a morte está próxima. Deixam o bando e partem sozinhos, em direção ao jamais encontrado cemitério perdido dos elefantes, considerado o Eldorado dos caçadores e negociantes das valiosas presas de marfim dos velhos elefantes.
Mas os homens não têm a dignidade dos velhos elefantes. Por isso tentam viver, até mesmo quando viver não é mais preciso. Tanta coisa é preciso. Viajar é preciso, cantar é preciso, navegar é preciso, voar é preciso, sonhar é preciso. Até mesmo votar é preciso. Mas, viver, às vezes, não é preciso. Os que se apegam à vida, quando viver não é preciso, são os homens que envelheceram inutilmente.
Velho! O que deveria ser uma honra e um prêmio passa a ser uma vergonha, uma carga pesada, uma culpa não merecida, um arrastar de pés sobre sandálias muito gastas, elas também, num certo sentido, culpadas de terem ultrapassado o tempo permitido às sandálias existir.
E um dia, o homem velho que acordou pensando ser novo, ao tomar consciência real de que o tempo passou e não voltará jamais, desaba para dentro de si mesmo, como um buraco negro psicológico, até desabar para o buraco negro da sepultura que, faminta, o chama de boca escancarada, sabendo que a sua fome de velhos homens velhos jamais será saciada.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
... E A MORTE CHOROU
O homem pregado na cruz olhou para o passado e ficou sem entender o que havia acontecido. Tudo o que sempre quisera, tinha sido levar paz ao coração de uma humanidade tão atormentada, que de humana tinha bem pouco. Mas como era de seu feitio perdoou-a uma vez mais. Lembrou-se do pai, um carpinteiro tão devotado à esposa, que acre-ditara sem duvidar por um instante que fosse, naquela estranha história de concepção sem pecado. Se ou-trens não entenderam, ele entendeu porque era da sua natureza a compreensão absoluta de tudo o que há. Lembrou dias felizes, quando esculpia pássaros de barro, dava-lhes um sopro e se divertia vendo-os criar vida e voar em direção ao azul do céu de Israel, terra tão bela e tão conturbada, que não conheceria paz até o final dos tempos, porque assim estava escrito que seria. Pobre Israel! E derramou uma lágrima solitária pelo rosto vincado de dor. Lembrou seu breve tempo de contador de parábolas, e seu coração encheu-se de conforto, achando que aqueles ensinamentos seriam transmitidos geração após geração até a consumação dos séculos. Lembrou de fatos que jamais seriam esquecidos. A viagem para o Egito, feita em lombo de burro, era um verdadeiro épico. Principalmente se levado em conta, que seu séquito era composto apenas de uma mulher de simplicidade extrema e seu marido. Gostava mesmo, era de lembrar seu nascimento. Aquela cena do presépio, pressentia, ficaria gravada na mente dos homens de boa vontade para todo o sempre. Mas houvera os tropeços e os enganos. Judas tinha sido o maior deles. Como pudera confiar naquele homem, indagava-se desde o momento em que fora preso?
A dor nas pernas quebradas doía demais. Sabia que não suportaria por muito tempo aquele sofrimento. Aqueles romanos sabiam como inflingir dor a alguém. De repente, deu um grito exasperado. Que necessidade tinha aquele soldado, de furar-lhe o ventre? Mereceriam esses seres de carbono, continuar sua miserável existência?, refletiu por um átimo de tempo, para arrepender-se em seguida. Como pudera pensar desse modo, logo Ele, que fora enviado para salvar os pecadores do mundo? Mas eram tão cruéis, esses homens que o Pai enviara para a dura missão de salvá-los. Às 15h não mais suportou tanto sofrer. Levantou os olhos para o alto e bradou: “Elli, Elli, lema sabachtani? O rosto pendeu sobre o peito, arfou um pouco mais e expirou, pondo fim à sua permanência na Terra dos Homens.
Nas fímbrias do Universo, bem dentro do lado obscuro do espaço sem fim, uma figura sombria enco-lhia-se numa das dobras do tempo. Estava triste. Mais que isso, estava amargurada. Começara sua existência no mesmo momento em que fora criado o primeiro vivente. Desde então matara sem cessar. Era a sua função. Por isso, o estereótipo que fizeram de si: uma Dama sombria, portando sempre a foice com que cortava o liame que prendia os seres à vida. Mas até ela, achara injusta a morte do Homem que acabara de matar. E por não suportar a missão de que a haviam encarregado, e à qual não poderia fugir, a Morte encolheu-se um pouco mais sobre si mesma, pôs as mãos descarnadas sobre o rosto descarnado também, e pela primeira vez em toda a sua existência, chorou como nenhum ser chorara antes e nem choraria depois.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
D'US E O TEMPO

Diz a Bíblia, que Deus já existia antes mesmo do início dos tempos. O início dos tempos é um dos grandes mistérios com os quais o homem já defrontou. Primeiro, porque se o tempo é infinito não terá fim. Por conseguinte, não pode ter tido início. Se não teve início, como D’us poderia existir antes do que não teve início? Dúvida para dilacerar qualquer crente que não seja completamente crente. Mas este tem seu próprio contraditório: como duvidar, se o seu princípio filosófico é montado, não em cima do conhecimento, que só vem a partir da dúvida, mas em cima da fé. E como é difícil crer. Só os que não crêem podem entender do que falo.
É mais fácil e mais confortável, mas de imprudência a toda prova, crer na ilusão da mulher amada, do que acreditar no que já era antes de ser; no que tem 72 nomes e cujo nome verdadeiro é YHWH, ou seja, o Impronunciável. Sem contar, naturalmente, com o grego Theós, o catalão Déu, o espanhol Dios, o aragonês Ridiós, o francês Dieu, o bretão Doue, o italiano Dio, o inglês God, o alemão Gott, o dinamarquês Gud, o norueguês Herregud ou Herre Gud, o sueco Herregud ou Gud, simplesmente. Os muçulmanos, árabes ou não, dizem Allah. Mas dizem, também, que o Altíssimo teria cem nomes, dos quais o último seria Impronunciável. Finalmente, temos o esperanto Mia Dio (Meu Deus), isto sem contar com o eslavo Bog, o sânscrito Ishvara, El no judaísmo, onde antes pontificou Elohim, substituído por Javeh e Jeovah, e onde aparece também, o tetragrama YHWH, que se acredita referir-se à origem henoteística; o hindu Krishna-Vasudeva na Bhagavata ou, posteriormente, Vixnu e Hari, ou recentemente Shakti.
Mas, a partir do momento em que passamos a nos referir a nós mesmos com o sentido do existir próprio, momento esse que não sabemos precisar quando ocorreu pois já existíamos antes, ainda que sem a consciência do existir, é que tentamos administrar o tempo, o precioso e pequeno tempo da nossa existência. E como é difícil fazê-lo.
Determinamos então que há um tempo para tudo. Um tempo para nascer, um tempo para viver e um tempo para morrer. Neste meio tempo, temos de arranjar tempo para outras coisas, que no nosso entender, deverão preencher o tempo vazio das nossas vazias existências. Passamos a exigir, criar ou ter um tempo para trabalhar, um tempo para comer, um tempo para dormir. Um tempo para dançar, para sorrir.
Mas temos que ter também, um tempo para sofrer, um tempo para derramar toda a lágrima que há. Um tempo para a vingança. Mas não há tempo para o perdão. Perdoai-me pelo amor de D'us, deveríamos bradar aos céus todo santo dia, se é que algum dia é santo, se é que alguma coisa é santa. Um tempo para se arrepender. Mas não há tempo para o arrependimento. Temos que ter tempo para tudo, mas não há tempo para nada.
A maré do tempo virou, É tempo de partir para o outro lado do tempo. Mas se tempo houver, cante. Cante com toda a alma, com todo o coração, com toda a devoção, como cantou Davi, como cantou Salomão, como eu cantava quando tempo havia para cantar. Como cantava Vinícius. São demais os perigos desta vida...
FAÇA A SUA PARTE
Muito se tem falado da violência em todos os campos da sociedade brasileira. Violência, sabe-se, é um produto natural, na medida em que a própria vida é, por si só, um ato de violência. Apenas como exemplo, para que qualquer forma de vida viva, é necessário que uma outra forma de vida qualquer morra. É a cadeia alimentar sem a qual a própria vida não existiria. Mas, considerações filosóficas à parte, do que queremos realmente falar, não é sequer da violência que se institucionalizou há poucas décadas neste país, outrora um dos mais pacíficos do mundo. O quê fizemos das nossas próprias vida? O que fizemos e continuamos a fa-zer das vidas de nossos filhos e da vida dos filhos de nossos filhos? Como foi que permitimos que, nos últimos trinta anos, assassinássemos e fôssemos assassinados em número superior a um milhão de vidas humanas?
Que papel estamos representando na educação dos nossos jovens? Que papel representamos, realmente, nas nossas escolas? Alunos e professores, são aliados ou adversários? E qual o papel do educador social na prevenção da violência? A triste verdade é que não temos respostas para todas essas perguntas.
A violência protagonizada pelos jovens nas escolas é uma realidade inegável. A sociedade terá que se organizar e insurgir-se ativamente contra esse fenómeno, sob pena de desaparecermos, mergulhados num verdadeiro banho de sangue. Sabemos que, pelas mais diversas razões, a família, como a conhecíamos, destitui-se da sua função educativa.
E tanto isso é verdade que, será que poderíamos, todos, responder a algumas perguntas bem simples? Uma: Qual a última vez que você, pai, mãe ou chefe de família, fez uma refeição com seus filhos, inte-ressando-se pelo que eles fazem, participando mais ativamente da vida dele? Qual a última vez que sua família se reuniu e rezou unida, pedindo misericórdia ou proteção a Deus Todo-Poderoso? Qual a ultima vez que você foi à escola e perguntou a quantas andava o comportamento de seu filho?
Talvez a solução tenha seu princípio por aí porque, se continuarmos assistindo o triste espetáculo de alunos agredindo verbal ou fisicamente seus professores, sem que a punição exemplar venha a galope; se continuarmos assistindo, impassíveis, a agressão de estudantes contra estudantes; se continuarmos assistindo com deboche e um certo sorriso nos lábios, o quanto seu fi-lho é macho, então, lamentamos informar, nem o próprio Deus nos salvará, porque está escrito: “Faz da parte, que Eu te ajudarei.” E é isso que não estamos fazendo.
Que papel estamos representando na educação dos nossos jovens? Que papel representamos, realmente, nas nossas escolas? Alunos e professores, são aliados ou adversários? E qual o papel do educador social na prevenção da violência? A triste verdade é que não temos respostas para todas essas perguntas.
A violência protagonizada pelos jovens nas escolas é uma realidade inegável. A sociedade terá que se organizar e insurgir-se ativamente contra esse fenómeno, sob pena de desaparecermos, mergulhados num verdadeiro banho de sangue. Sabemos que, pelas mais diversas razões, a família, como a conhecíamos, destitui-se da sua função educativa.
E tanto isso é verdade que, será que poderíamos, todos, responder a algumas perguntas bem simples? Uma: Qual a última vez que você, pai, mãe ou chefe de família, fez uma refeição com seus filhos, inte-ressando-se pelo que eles fazem, participando mais ativamente da vida dele? Qual a última vez que sua família se reuniu e rezou unida, pedindo misericórdia ou proteção a Deus Todo-Poderoso? Qual a ultima vez que você foi à escola e perguntou a quantas andava o comportamento de seu filho?
Talvez a solução tenha seu princípio por aí porque, se continuarmos assistindo o triste espetáculo de alunos agredindo verbal ou fisicamente seus professores, sem que a punição exemplar venha a galope; se continuarmos assistindo, impassíveis, a agressão de estudantes contra estudantes; se continuarmos assistindo com deboche e um certo sorriso nos lábios, o quanto seu fi-lho é macho, então, lamentamos informar, nem o próprio Deus nos salvará, porque está escrito: “Faz da parte, que Eu te ajudarei.” E é isso que não estamos fazendo.
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