Talvez nada seja mais prejudicial às instituições humanas que o fanatismo. E isso vale para go-vernos, religiões, seitas, filosofias e até mesmo para o modo como cada um conduz a própria vida.
Voltaire dizia que “o fanatismo é para a superstição o que o delírio é para a febre, o que é a raiva para a cólera.” Dizia mais: “aquele que tem êxtases, visões, que considera os sonhos como realidades e as imaginações como profecias é um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte é um fanático.”
Exemplos não faltam dos males que o fanático e o fanatismo podem causar. Bartolomeu Diaz, que partiu de Roma para ir assassinar seu irmão e que o matou acreditando fazê-lo pelo amor de Deus, foi um dos mais abomináveis fanáticos que em todos os tempos pôde produzir a superstição.
Os assassinos do do rei Henrique III, do rei Henrique IV, do Arquiduque da Áustria por um fanático sérvio, o que desencadeou a I Guerra Mundial com seus 10 milhões de mortos, de Ghandi e de tantos outros, foram enfermos da mesma raiva de Diaz.
Outro exemplo de fanatismo simplesmente horripilante, foi o que fez com que os burgueses parisienses degolassem e atirassem pelas pelas janelas para que fossem despedaçados pela turba em delírio seus concidadãos, pelos simples fato de serem protestantes (huguenotes), naquilo que se tornou conhecido como o massacre da noite de São Bartolomeu, que provocou a morte de algo entre 30 mil a 100 mil pessoas. Mas há fanáticos de outros tipos, como aqueles magistrados que, a sangue frio, condenam aqueles cujo único crime é não pensar como eles.
Quem tem o cérebro gangrenado pelo fanatismo, é possuidor de doença incurável. Quem sabe, talvez, o espírito filosófico possa se sobrepor a esses portadores do mal em toda a sua virulência. Essa gente está persuadida de que o espírito nada santo que os penetra está acima das leis e que o seu entusiasmo é a única lei a que devem obedecer.
O Ano Novo se aproxima e com ele um novo tempo na política do Brasil e do Amapá. E os fanáticos de todos os naipes ideológicos estão a postos com suas garras de águias das grandes alturas para se lançarem sobre seus adversários ou quem quer que acreditem não concordar com suas ideias e crenças.
Que Deus nos livre deles, ou se apiede de nós, o povo, se esses abutres se colocarem acima do que recomenda a prudência e o espírito do filósofo se ausente de nós. Sabe-se que o mundo só conhecerá a verdadeira paz, no dia em que os príncipes forem filósofos e os filósofos, príncipes.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
O ASSESSOR DO VEREADOR
Sarah Bernhardt, a maior de todas as estrelas que passaram pela Comédie Française, certa ocasião, referindo-se às pessoas de pouca importância, mas que se dão ares superiores, chamou-as de “sargentos da vida”. Queria dizer, naqueles tempos em que generais e marechais de França desmanchavam-se à sua presença, ao seu olhar, aos seus olhos e principalmente à sua arte, que eles, na sua imponência, eram muito mais simples do que as patentes inferiores, suboficiais que arrotavam uma importância que não possuíam.
Realmente, quem se dá muita importância, é porque não tem nenhuma. Os verdadeiramente grandes, são afáveis, simples, cordatos, tranquilos, humildes, não a humildade da subserviência, mas a humildade característica de quem não se deixou picar pelo inseto do orgulho.
Napoleão, conta-se, passou horas no posto de sentinela, ao encontrar dormindo, vencido pelo cansaço, o soldado que deveria estar atento, vigiando as trincheiras inimigas. Não o castigou. Soldado, ele também, sabia que contra o sono não há resistência.
Soubéssemos nós que o sono é o morrer na certeza da ressurreição, quantos de nós desfrutariam desse prosaico prazer, que só é sentido depois do acordar? A importância que nos damos sem nada sermos, chega a ser insolente.
Jesus era a humildade personificada. Ghandi, dele se disse que as futuras gerações jamais acreditariam que tal homem pudesse existir tamanha a bondade e pureza de seu coração.
Temos o mau hábito de achar, que o idiota deste lado do rio é superior ao idiota do outro lado do rio. Arrogância, orgulho e preconceito andam de mãos dadas. Esquecemos muitas vezes, que quem preconceitua, pré-julga e pré-condena.
Tenho conversado com grandes homens que são exemplos de cordura. Eu que não sou tão simples assim, pois às vezes atribuo-me uma importância que não possuo, tenho tido este raro privilégio. E aprendido com ele. A vida é um eterno aprender. Uma lástima que tão poucos de nós o consigam.
A propósito, há dias encontrei um vereador furioso. Resfolegava como uma locomotiva antiga. Movido à lenha, soltava fumaça pelas narinas, como se fossem elas cha-minés emborcadas. Puxou-me de lado e confidenciou-me o motivo de tamanha indignação: Um secretário muni-cipal não pudera atender de imediato, um assessor seu.
Assessor, como todos sabem, é aquele sujeito importantíssimo que atende também pelo mimoso apelido de “aspone”. Um “aspone” sabe-se, é infinitamente superior ao “asponin”, que nada mais é que um “aspone” interino.
Mas, voltando a Sua Importância Real, o vereador, continuando a destilar toda a raiva que lhe era possível, esbravejava: - “Já pensou, amigo Carlos, não recebeu o meu assessor!”
Depois, olhando-me nos olhos, angustiou-se e perguntou: - Será que ele não percebeu que o meu assessor era uma autoridade? Afinal de contas, trata-se de um assessor de um vereador...
Deixei-o na dúvida quanto à importância do assessor e fiquei matutando com os meus botões. Ainda sou um matuto. Daqueles que matutam com seus botões. Fui embora pensando na importância daqueles que não têm a menor importância.
Realmente, quem se dá muita importância, é porque não tem nenhuma. Os verdadeiramente grandes, são afáveis, simples, cordatos, tranquilos, humildes, não a humildade da subserviência, mas a humildade característica de quem não se deixou picar pelo inseto do orgulho.
Napoleão, conta-se, passou horas no posto de sentinela, ao encontrar dormindo, vencido pelo cansaço, o soldado que deveria estar atento, vigiando as trincheiras inimigas. Não o castigou. Soldado, ele também, sabia que contra o sono não há resistência.
Soubéssemos nós que o sono é o morrer na certeza da ressurreição, quantos de nós desfrutariam desse prosaico prazer, que só é sentido depois do acordar? A importância que nos damos sem nada sermos, chega a ser insolente.
Jesus era a humildade personificada. Ghandi, dele se disse que as futuras gerações jamais acreditariam que tal homem pudesse existir tamanha a bondade e pureza de seu coração.
Temos o mau hábito de achar, que o idiota deste lado do rio é superior ao idiota do outro lado do rio. Arrogância, orgulho e preconceito andam de mãos dadas. Esquecemos muitas vezes, que quem preconceitua, pré-julga e pré-condena.
Tenho conversado com grandes homens que são exemplos de cordura. Eu que não sou tão simples assim, pois às vezes atribuo-me uma importância que não possuo, tenho tido este raro privilégio. E aprendido com ele. A vida é um eterno aprender. Uma lástima que tão poucos de nós o consigam.
A propósito, há dias encontrei um vereador furioso. Resfolegava como uma locomotiva antiga. Movido à lenha, soltava fumaça pelas narinas, como se fossem elas cha-minés emborcadas. Puxou-me de lado e confidenciou-me o motivo de tamanha indignação: Um secretário muni-cipal não pudera atender de imediato, um assessor seu.
Assessor, como todos sabem, é aquele sujeito importantíssimo que atende também pelo mimoso apelido de “aspone”. Um “aspone” sabe-se, é infinitamente superior ao “asponin”, que nada mais é que um “aspone” interino.
Mas, voltando a Sua Importância Real, o vereador, continuando a destilar toda a raiva que lhe era possível, esbravejava: - “Já pensou, amigo Carlos, não recebeu o meu assessor!”
Depois, olhando-me nos olhos, angustiou-se e perguntou: - Será que ele não percebeu que o meu assessor era uma autoridade? Afinal de contas, trata-se de um assessor de um vereador...
Deixei-o na dúvida quanto à importância do assessor e fiquei matutando com os meus botões. Ainda sou um matuto. Daqueles que matutam com seus botões. Fui embora pensando na importância daqueles que não têm a menor importância.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
O HOMEM QUE FALAVA COM PÁSSAROS
Olhou espantado para o pássaro que falava com ele. Estranhou por duas razões óbvias. A primeira, é que passara a vida aprendendo que pássaros não falam. A segunda, é que aquele estranho pássaro chegara, no exato momento em que dissera que viria. Sim, aquele era o seu segundo encontro com aquele estranho ser voador. Quando o vira pela primeira vez, era muito novo. Tão novo que nem se apercebera do que tinha ocorrido. Só agora lembrava tudo com espantosa nitidez.
Entre o primeiro e o segundo encontro, muito tempo passara e coisas estranhas haviam ocorrido. Uma delas, era a incapacidade dos homens para chegarem até ele na hora certa. Jamais começou uma reunião na hora estabelecida; jamais seu avião decolou na hora programada; jamais conseguiu fa-zer qualquer coisa, por pequena que fosse, na hora e no tempo exatos. E foi isso que o perdeu.
Ariadne, a que tece o destino dos homens, uniu todos os fios que o levariam à sua razão de viver. E assim, fio por fio, ponto por ponto, foi tecendo a vida daquele homem diferente de todos os homens que até então existiram. Mas, Ariadne tinha um inimigo feroz. Chronos, o dono das dobras do tempo, trabalhava contra ela. E trabalhando contra ela, fez do homem atormentado pela falta de tempo dos outros homens, a sua vítima fatal.
A razão de viver do homem que falava com pássaros, foi criada quando o universo era apenas matéria disforme. Foi nela que o Criador de tudo o que há se inspirou, para fazer a sua obra-prima: a mulher. As belas mulheres cortariam os pulsos se a vissem em toda a sua plenitude. A nudez não é coisa do mundo dos homens. É coisa dos seres celestes, dos seres divinos. E quem não viu a musa do Criador em toda a sua esplendorosa nudez, não sabe o que é belo. Pobres e belas mulheres brancas. Não saberão jamais, que a beleza maior foi tirada do mundo negro que dominava o espaço, quando a luz ainda não existia. Por isso, talvez, ainda hoje, as belas mulheres negras consigam anular toda a brancura que há na pele das mulheres alvacentas.
O homem que falava com pássaros não a viu jamais. Mas, por estranha indução, imaginou-a, e sem saber que era um estranho na terra dos homens, viu na sua imaginação como era, e a amou para sempre. Não sabia então que, vítima involuntária de Chronos, chegaria tarde para o encontro que era a causa da sua existência.
Por isso, quando o pássaro que falava, disse-lhe que era chegada a hora de irem, pois a senhora da vida pedia-lhe a sua, derramou uma solitária lágrima recheada de amor. E pela primeira vez, sem que tivesse marcado o encontro, chegara na hora certa, para andar no caminho sem volta da morte cruel.
Não soube jamais, que assim que partiu, ela chegou. Chegou para completá-lo, para fazer dele um ser por inteiro, para gerar uma nova raça de seres, num mundo onde o tempo não existe. Mas, pela primeira vez, partira na hora certa, deixando para trás, tantas possibilidades que não se realizariam jamais.
Entre o primeiro e o segundo encontro, muito tempo passara e coisas estranhas haviam ocorrido. Uma delas, era a incapacidade dos homens para chegarem até ele na hora certa. Jamais começou uma reunião na hora estabelecida; jamais seu avião decolou na hora programada; jamais conseguiu fa-zer qualquer coisa, por pequena que fosse, na hora e no tempo exatos. E foi isso que o perdeu.
Ariadne, a que tece o destino dos homens, uniu todos os fios que o levariam à sua razão de viver. E assim, fio por fio, ponto por ponto, foi tecendo a vida daquele homem diferente de todos os homens que até então existiram. Mas, Ariadne tinha um inimigo feroz. Chronos, o dono das dobras do tempo, trabalhava contra ela. E trabalhando contra ela, fez do homem atormentado pela falta de tempo dos outros homens, a sua vítima fatal.
A razão de viver do homem que falava com pássaros, foi criada quando o universo era apenas matéria disforme. Foi nela que o Criador de tudo o que há se inspirou, para fazer a sua obra-prima: a mulher. As belas mulheres cortariam os pulsos se a vissem em toda a sua plenitude. A nudez não é coisa do mundo dos homens. É coisa dos seres celestes, dos seres divinos. E quem não viu a musa do Criador em toda a sua esplendorosa nudez, não sabe o que é belo. Pobres e belas mulheres brancas. Não saberão jamais, que a beleza maior foi tirada do mundo negro que dominava o espaço, quando a luz ainda não existia. Por isso, talvez, ainda hoje, as belas mulheres negras consigam anular toda a brancura que há na pele das mulheres alvacentas.
O homem que falava com pássaros não a viu jamais. Mas, por estranha indução, imaginou-a, e sem saber que era um estranho na terra dos homens, viu na sua imaginação como era, e a amou para sempre. Não sabia então que, vítima involuntária de Chronos, chegaria tarde para o encontro que era a causa da sua existência.
Por isso, quando o pássaro que falava, disse-lhe que era chegada a hora de irem, pois a senhora da vida pedia-lhe a sua, derramou uma solitária lágrima recheada de amor. E pela primeira vez, sem que tivesse marcado o encontro, chegara na hora certa, para andar no caminho sem volta da morte cruel.
Não soube jamais, que assim que partiu, ela chegou. Chegou para completá-lo, para fazer dele um ser por inteiro, para gerar uma nova raça de seres, num mundo onde o tempo não existe. Mas, pela primeira vez, partira na hora certa, deixando para trás, tantas possibilidades que não se realizariam jamais.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
VIVER NÃO É PRECISO
O rapaz acordou espantado. Olhou em volta e não reconheceu o lugar, muito embora tudo o que o rodeava não lhe parecesse estranho. Tentou levantar-se. Sentiu dificuldades. O corpo parecia-lhe mais cansado que o usual. Com muito esforço saiu da cama e dirigiu-se, levemente encurvado, em direção ao banheiro. Um banho e tudo ficará melhor, pensou. Foi quando se olhou no espelho e se assustou. Não! Pensou estarrecido, aquilo não podia ser verdade! Devo estar sonhando, disse a si mesmo. Melhor dizendo, devo estar tendo algum pesadelo. Tranquilizou-se com a ideia. Daqui a pouco acordaria e tudo seria apenas uma lembrança ruim, consolou-se. Mas, notou que o sonho - ou pesadelo - parecia-lhe real demais para não ser real. Olhou-se novamente no espelho. Muito embora ele continuasse sendo ele, o aspecto era de um homem velho. Velho e terrivelmente cansado. Cansado de viver, cansado de tantos sonhos perdidos, tantas falsas ilusões, tantas quimeras que ficaram na estrada da sua vida já tão gasta, tão rota, tão inútil. Não lembrava bem se ainda tinha filhos. Mulher, com certeza, não tinha mais. Tinha consciência que mulheres não gostam de homens tão velhos, tão desgastados na luta inútil da sobrevivência.
A clareza do que ocorrera começou a tomar conta de si. Teve vontade de chorar. Seria tão mais fácil não acordar mais. Acreditara durante tanto tempo que o sono é a morte na certeza do acordar, que até desejava o contrário. Quando o grande cansaço se apossa do corpo, da mente e da alma, sabe-se que é tempo de partir. Que bom seria, pensou, se os homens fizessem como os velhos elefantes africanos, que sabem quando a morte está próxima. Deixam o bando e partem sozinhos, em direção ao jamais encontrado cemitério perdido dos elefantes, considerado o Eldorado dos caçadores e negociantes das valiosas presas de marfim dos velhos elefantes.
Mas os homens não têm a dignidade dos velhos elefantes. Por isso tentam viver, até mesmo quando viver não é mais preciso. Tanta coisa é preciso. Viajar é preciso, cantar é preciso, navegar é preciso, voar é preciso, sonhar é preciso. Até mesmo votar é preciso. Mas, viver, às vezes, não é preciso. Os que se apegam à vida, quando viver não é preciso, são os homens que envelheceram inutilmente.
Velho! O que deveria ser uma honra e um prêmio passa a ser uma vergonha, uma carga pesada, uma culpa não merecida, um arrastar de pés sobre sandálias muito gastas, elas também, num certo sentido, culpadas de terem ultrapassado o tempo permitido às sandálias existir.
E um dia, o homem velho que acordou pensando ser novo, ao tomar consciência real de que o tempo passou e não voltará jamais, desaba para dentro de si mesmo, como um buraco negro psicológico, até desabar para o buraco negro da sepultura que, faminta, o chama de boca escancarada, sabendo que a sua fome de velhos homens velhos jamais será saciada.
A clareza do que ocorrera começou a tomar conta de si. Teve vontade de chorar. Seria tão mais fácil não acordar mais. Acreditara durante tanto tempo que o sono é a morte na certeza do acordar, que até desejava o contrário. Quando o grande cansaço se apossa do corpo, da mente e da alma, sabe-se que é tempo de partir. Que bom seria, pensou, se os homens fizessem como os velhos elefantes africanos, que sabem quando a morte está próxima. Deixam o bando e partem sozinhos, em direção ao jamais encontrado cemitério perdido dos elefantes, considerado o Eldorado dos caçadores e negociantes das valiosas presas de marfim dos velhos elefantes.
Mas os homens não têm a dignidade dos velhos elefantes. Por isso tentam viver, até mesmo quando viver não é mais preciso. Tanta coisa é preciso. Viajar é preciso, cantar é preciso, navegar é preciso, voar é preciso, sonhar é preciso. Até mesmo votar é preciso. Mas, viver, às vezes, não é preciso. Os que se apegam à vida, quando viver não é preciso, são os homens que envelheceram inutilmente.
Velho! O que deveria ser uma honra e um prêmio passa a ser uma vergonha, uma carga pesada, uma culpa não merecida, um arrastar de pés sobre sandálias muito gastas, elas também, num certo sentido, culpadas de terem ultrapassado o tempo permitido às sandálias existir.
E um dia, o homem velho que acordou pensando ser novo, ao tomar consciência real de que o tempo passou e não voltará jamais, desaba para dentro de si mesmo, como um buraco negro psicológico, até desabar para o buraco negro da sepultura que, faminta, o chama de boca escancarada, sabendo que a sua fome de velhos homens velhos jamais será saciada.
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