m contraposição a Wiliam Golding, que acreditava na maldade inata do ser humano, como mostra de forma admirável em seu livro "O Senhor das Moscas", o suíço Jean-Jacques Rousseau acreditava que o homem é um ser naturalmente bom, sendo a sociabilização a culpada pela sua "degeneração". Para Rosseau, o Contrato Social é um acordo entre indivíduos para se criar uma Sociedade, e só então um Estado, isto é, o Contrato é um Pacto de associação, não de submissão.
Ao que parece, é isto que a classe política brasileira ainda não conseguiu entender ao longo da sua história. Governantes, salvo as exceções que sempre as há, partem do princípio de que deve haver, por parte de seus súditos, uma submissão, e não uma associação. E não é por outra razão que, em podendo avançar muito mais rápido em direção ao pleno desenvolvimento político, econômico e social, andamos mais lentamente, isto quando não regredimos, como no caso do Amapá em que, nos últimos dez anos, tivemos um crescimento populacional de cerca de 40%, um crescimento do Orçamento do Estado em quase 350% e, ao invés de crescer, regredimos, retroagimos, ficamos menores, mais fracos e, por conseguinte, mais dependentes dos poderosos, o que não é bom para ninguém, inclusive para os donos do poder.
É absolutamente necessário que todos entendamos, como ensinava o grande pensador, que o homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se acorrentado. E a grande questão é: por qual motivo os homens vivem sob os grilhões da vida em sociedade, por que os homens abandonaram o estado de natureza, uma vez que todos nascem homens e livres?
Pensar é preciso. Ou não é preciso pensar? A família, primeiro modelo de sociedade política: o pai representado pelo chefe, os filhos pelo povo. Mas o direito do pai sobre o filho cessa assim que este atinge a idade da razão e torna-se senhor de si. A distinção entre sociedade familiar/sociedade política se dá, principalmente, no fato de o pai se ligar ao fi-lho por amor, e o chefe pelo prazer em mandar. Quanto ao direito do mais forte, Rousseau nos diz que: ceder à força constitui ato de necessidade, não de vontade; quando muito, ato de prudência. Já o Direito, este é um conceito moral, fundamentado na razão. Sabe-se que não há direito na submissão de um homem pela força. Nenhum homem aliena sua liberdade gratuitamente a um outro - tampouco um povo a um indivíduo.
No dia em que entendermos plenamente a transitoriedade da vida, e por extensão a transitoriedade maior do poder, então teremos a possibilidade de sermos realmente, bons como acreditava Rosseau. A partir de então não mais exerceremos o nosso lado Belzebu, como se dizia antes que chegássemos à idade da razão.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
domingo, 2 de janeiro de 2011
ADMIRÁVEL MUNDO NOVO
É urgente, a necessidade que a medicina, em conjunto com a ciência e a tecnologia reformulem a aplicabilidade dos órgãos e membros de tipos humanos específicos. A reformulação poderia começar pela boca. Uma urgente cirurgia emudecendo a classe política seria um alívio e tanto para os nossos poluídos ouvidos, desgastados pela verborragia sem fim e pelo festival de besteiras em que a classe especializou-se em produzir e transmitir na forma de sons. A maioria, absolutamente incompreensíveis.
O estômago do povo precisa de uma urgente adaptação a um novo estilo de digestão. Não aguentamos mais a quantidade de sapos que os poderosos nos obrigam a engolir. E a digerir, o que é pior
Os pés, bem que poderiam calçar botas eletrônicas de sete léguas. Com elas, quem sabe, poderíamos fugir para Pasárgada. Com duas vantagens. A primeira, ficaríamos bem distantes da miséria que nos assola. A segunda, em Pasárgada, todos são amigos do rei. Aqui não. Só os privilegiados do andar de cima, conseguem a façanha. E nem todos. Talvez isso tenha levado Millôr Fernandes dizer: “Ou restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos”.
Mas, voltando ao admirável homem novo brotado das profundas da ciência, os olhos, inevitavelmente, teriam que ser substituídos. Ou os olhos ou a paisagem. Talvez seja mais fácil fabricar novos olhos que não vejam tanta corrupção, tanta decadência moral, tanta violência, tanto assalto - às bolsas particulares e aos cofres públicos -, tantos crimes, que não é possível sejamos feitos à imagem e semelhança de Deus. Nós, nossas atitudes e Ele, não temos nada a ver.
Mãos. Para que servem as mãos, perguntou o poeta. A resposta é fácil. Servem para acariciar, para trabalhar, para alimentar, para construir, para pintar, para embelezar, para escrever. Servem para unir-se em fervor de oração. Servem para abençoar, para purificar. Servem para clamar, estendidas aos céus, pedindo piedade para os que sofrem. Servem para curar. Deviam servir só para isso.
Mas servem também para empunhar a arma que mata, servem para estrangular, para ferir, para destruir, para enfear, para roubar. Servem para apedrejar. Servem para, punho cerrado, elevar-se aos céus pedindo - ou jurando - vingança. Não deviam servir para isso. Não deviam servir para isso e tantas coisas mais e más. Não deviam servir jamais, para roubar, assaltar, furtar. Também não deveriam servir para escrever o nome errado na cédula eleitoral.
Haverá em todo o Universo, a grande medicina que nos cure de todos esses males e que nos opere, criando homens verdadeiramente novos?
Há sim. É uma operação profunda, radical. Mas que não exige bisturis, tesouras, anestesias ou raios lasers. Só precisa de atenção, boa vontade e a crença inabalável de que a fé remove montanhas. Ah! E o fiel cumprimento de um código de postura simples e simplista. Atende pelo nome de Dez Mandamento.
O estômago do povo precisa de uma urgente adaptação a um novo estilo de digestão. Não aguentamos mais a quantidade de sapos que os poderosos nos obrigam a engolir. E a digerir, o que é pior
Os pés, bem que poderiam calçar botas eletrônicas de sete léguas. Com elas, quem sabe, poderíamos fugir para Pasárgada. Com duas vantagens. A primeira, ficaríamos bem distantes da miséria que nos assola. A segunda, em Pasárgada, todos são amigos do rei. Aqui não. Só os privilegiados do andar de cima, conseguem a façanha. E nem todos. Talvez isso tenha levado Millôr Fernandes dizer: “Ou restaure-se a moralidade, ou nos locupletemos todos”.
Mas, voltando ao admirável homem novo brotado das profundas da ciência, os olhos, inevitavelmente, teriam que ser substituídos. Ou os olhos ou a paisagem. Talvez seja mais fácil fabricar novos olhos que não vejam tanta corrupção, tanta decadência moral, tanta violência, tanto assalto - às bolsas particulares e aos cofres públicos -, tantos crimes, que não é possível sejamos feitos à imagem e semelhança de Deus. Nós, nossas atitudes e Ele, não temos nada a ver.
Mãos. Para que servem as mãos, perguntou o poeta. A resposta é fácil. Servem para acariciar, para trabalhar, para alimentar, para construir, para pintar, para embelezar, para escrever. Servem para unir-se em fervor de oração. Servem para abençoar, para purificar. Servem para clamar, estendidas aos céus, pedindo piedade para os que sofrem. Servem para curar. Deviam servir só para isso.
Mas servem também para empunhar a arma que mata, servem para estrangular, para ferir, para destruir, para enfear, para roubar. Servem para apedrejar. Servem para, punho cerrado, elevar-se aos céus pedindo - ou jurando - vingança. Não deviam servir para isso. Não deviam servir para isso e tantas coisas mais e más. Não deviam servir jamais, para roubar, assaltar, furtar. Também não deveriam servir para escrever o nome errado na cédula eleitoral.
Haverá em todo o Universo, a grande medicina que nos cure de todos esses males e que nos opere, criando homens verdadeiramente novos?
Há sim. É uma operação profunda, radical. Mas que não exige bisturis, tesouras, anestesias ou raios lasers. Só precisa de atenção, boa vontade e a crença inabalável de que a fé remove montanhas. Ah! E o fiel cumprimento de um código de postura simples e simplista. Atende pelo nome de Dez Mandamento.
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
NÓS E O POVO HEBREU
Sei que é muita pretensão minha querer – e o que é pior – tentar escrever sobre a saga do povo que o próprio D’us chamou de seu e com o qual, nós, ocidentais no geral e brasileiros no particular, além dos médio-orientais, temos tudo a ver. No entanto, como ousadia é palavra que não está ausente do meu dicionário, vou pelo menos tentar falar sobre um povo, uma nação e uma religião que estão enraizados no mais profundo do nosso ser, senão, vejamos: Nossos nomes próprios são, em grande parte, nomes hebraicos. Exemplos: Gabriel (homem forte de D’us), Rafael (D’us cura), Miguel (soldado de D’us), José Yossef), Maria (Miriã), Simão (obediente), Madalena (Maria Madalena ou Maria de Magdala, Magadã ou Magedan (cidade próxima da margem ocidental do Lago de Tiberíades. A propósito, o nome Israel, tão comum entre nós, significa “O que lutou com Deus” ou “Forte como Deus”. Anteriormente seu nome era Jacó (Jacob), aquele que trabalhou para Labão durante longos 14 anos por causa da bela Raquel (ovelha, ou mansa como uma ovelha), foi patriarca, filho de Isaque (Isaac) e Rebecca, neto de Abraão (Pai de multidões), o que antes foi Abrão (Pai do alto).
Fiquemos por aqui, apenas para citar alguns nomes. Nossas religiões têm tudo a ver com o povo hebreu. O nome foi aportuguesado do hebraico Ivrim ou Ibrim, para denominar os descendentes de Sem, filho de Noé. Muitos, porém, acreditam que hebreu, seria uma denominação advinda da expressão ever ha-nahar que significa “aquele que vem do outro lado do rio”, uma referência ao Rio Eufrates.
Foram eles, os hebreus, que primeiro tiveram a noção de um D’us único, ao contrário de todos os outros povos conhecidos à época, que tinham diversos deuses, incluindo gregos e romanos. Jesus (Yeshuah, em aramaico), um judeu e também arameu, é o nosso referencial sobre tudo o que existe de bom em todo o Universo conhecido. O mesmo D’us de Abraão é o nosso D’us, que também atende pelos nomes de Javeh, Jeovah, Elohim, Adonai ou ainda pelo tetragrama YHWH (ou seja, o Impronunciável) e o príncipe maior da Igreja Católica é Petrus (Pedro, em grego, aquele que antes era Simão, o pescador). Aliás, é bom lembrar que, assim como as igrejas protestantes, as ortodoxas e outras variações do catolicismo, a maronita, são filhas diretas da Igreja Católica Romana, esta também, é filha direta do Judaísmo. Se bem observarmos, veremos que nossa cultura, além da influência helênica, claro, tem muito – ou quase tudo a ver com o grande povo judeu. Aliás, segundo Gräetz, os povos criadores da civilização humana foram exatamente gregos e hebreus. Os helenos foram protagonistas únicos na história dos povos conquistados. Depois de sucumbirem sob as falanges macedônicas e as legiões romanas, impuseram aos vencedores sua enorme cultura que ainda hoje é fonte de conhecimento entre nós. Quanto ao povo hebreu, ao contrário dos gregos, permaneceu vivo em meio a impérios. Só para que se tenha uma pálida ideia de sua determinação em sobreviver num mundo hostil desde sempre, somente Jerusalém (que já teve nomes como (Jebus (dos jebuseus), Salém, Urusalim, Siom, Cidade de Davi, Aelia Capitolina, El Kuds (Santa), Beit el-Makdes (Casa da Santidade), Bet há-Mikdash (Templo), tem conseguido ressurgir das cinzas como se fora uma Phoenix hebreia ao longo dos últimos quatro mil anos a 121 conflitos por seu controle. Ela foi destruída duas vezes, 23 vezes sitiada, 52 vezes atacada e 44 vezes capturada por tribos e exércitos de impérios.
E ainda hoje, rodeado por milhões de inimigos árabes (eles também semitas e ditos descendentes de Ismael), Israel continua a guerrear por uma simples razão: o direito de existir. Ainda que banhada em sangue, milhões de litros de sangue ao longo de sua história, Jerusalém continua sendo a cidade sagrada de três grandes religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Além disso, ao que tudo indica, o passado, o presente e o futuro da humanidade passam por ali. E por toda Israel, evidentemente. Não à toa que judeus de todo o mundo continuam a dizer todo santo ano na época da Páscoa (Pessach, em hebraico, passagem, em português): “Ano que vem, em Jerusalém). Israel, é portanto, por tudo o que já nos ofereceu, por tudo o que nos oferece e por tudo o que ainda há de nos oferecer, a ponte entre as trevas e a luz.
Fiquemos por aqui, apenas para citar alguns nomes. Nossas religiões têm tudo a ver com o povo hebreu. O nome foi aportuguesado do hebraico Ivrim ou Ibrim, para denominar os descendentes de Sem, filho de Noé. Muitos, porém, acreditam que hebreu, seria uma denominação advinda da expressão ever ha-nahar que significa “aquele que vem do outro lado do rio”, uma referência ao Rio Eufrates.
Foram eles, os hebreus, que primeiro tiveram a noção de um D’us único, ao contrário de todos os outros povos conhecidos à época, que tinham diversos deuses, incluindo gregos e romanos. Jesus (Yeshuah, em aramaico), um judeu e também arameu, é o nosso referencial sobre tudo o que existe de bom em todo o Universo conhecido. O mesmo D’us de Abraão é o nosso D’us, que também atende pelos nomes de Javeh, Jeovah, Elohim, Adonai ou ainda pelo tetragrama YHWH (ou seja, o Impronunciável) e o príncipe maior da Igreja Católica é Petrus (Pedro, em grego, aquele que antes era Simão, o pescador). Aliás, é bom lembrar que, assim como as igrejas protestantes, as ortodoxas e outras variações do catolicismo, a maronita, são filhas diretas da Igreja Católica Romana, esta também, é filha direta do Judaísmo. Se bem observarmos, veremos que nossa cultura, além da influência helênica, claro, tem muito – ou quase tudo a ver com o grande povo judeu. Aliás, segundo Gräetz, os povos criadores da civilização humana foram exatamente gregos e hebreus. Os helenos foram protagonistas únicos na história dos povos conquistados. Depois de sucumbirem sob as falanges macedônicas e as legiões romanas, impuseram aos vencedores sua enorme cultura que ainda hoje é fonte de conhecimento entre nós. Quanto ao povo hebreu, ao contrário dos gregos, permaneceu vivo em meio a impérios. Só para que se tenha uma pálida ideia de sua determinação em sobreviver num mundo hostil desde sempre, somente Jerusalém (que já teve nomes como (Jebus (dos jebuseus), Salém, Urusalim, Siom, Cidade de Davi, Aelia Capitolina, El Kuds (Santa), Beit el-Makdes (Casa da Santidade), Bet há-Mikdash (Templo), tem conseguido ressurgir das cinzas como se fora uma Phoenix hebreia ao longo dos últimos quatro mil anos a 121 conflitos por seu controle. Ela foi destruída duas vezes, 23 vezes sitiada, 52 vezes atacada e 44 vezes capturada por tribos e exércitos de impérios.
E ainda hoje, rodeado por milhões de inimigos árabes (eles também semitas e ditos descendentes de Ismael), Israel continua a guerrear por uma simples razão: o direito de existir. Ainda que banhada em sangue, milhões de litros de sangue ao longo de sua história, Jerusalém continua sendo a cidade sagrada de três grandes religiões: judaísmo, cristianismo e islamismo. Além disso, ao que tudo indica, o passado, o presente e o futuro da humanidade passam por ali. E por toda Israel, evidentemente. Não à toa que judeus de todo o mundo continuam a dizer todo santo ano na época da Páscoa (Pessach, em hebraico, passagem, em português): “Ano que vem, em Jerusalém). Israel, é portanto, por tudo o que já nos ofereceu, por tudo o que nos oferece e por tudo o que ainda há de nos oferecer, a ponte entre as trevas e a luz.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
O CANTO DO CISNE
Deslizou pelas águas plácidas e um véu de tristeza encobriu seus olhos. Sabia que nunca mais veria aquela paisagem de sonho, aquele verde que cobria as margens do lago em que vivera durante tanto tempo. Pensou nas pétalas das flores que se debruçavam sobre o lago, e que caíam, quando chegava o tempo das flores caírem. Se as árvores ficavam menos belas, o lago, em compensação, enchia-se de mil variadas cores que só as flores primaveris têm.
Pensou em quantas primaveras passara ali, e esboçou um sorriso. Pensou nos verões da sua adolescência, quando os hormônios da juventude o levaram a cometer loucuras mil, e pensou que fora um tempo perdido. Tempo bom, era o da quase senectude que finalmente atingira. E pensou que, no inverno da sua existência, apesar de todas as fêmeas que lhe povoaram o caminho da vida, é que tinha encontrado a sua metade, aquela que fazia com que finalmente, após tanto tempo, se sentisse um ser por inteiro, aquela que lhe fora prometida pelos deuses das águas, quando sequer suspeitava, que estava destinado a nascer para reinar, soberano sobre todos os da sua espécie.
E perdido nos pensamentos, que tal qual um filme antigo, rodavam devagar nos olhos da sua imaginação, não a viu deslizar, vinda da outra margem do lago, na sua direção. O filme interrompeu-se para que ele pudesse apreciar na sua plenitude, aquela fêmea de beleza ímpar, que fizera com que o seu coração batesse mais forte, e voltasse a sonhar e a sentir sensações que julgara sepultadas para sempre, no lodo da vida que deixara para trás. Sorriu mais uma vez, mas era um sorriso diferente. Nem Salomão, em toda a sua glória, tivera tesouro mais precioso. Negra e bela, o sol coruscava, quando refletido na plumagem de ébano que lhe recobria o corpo, como se fosse uma rainha de Sabbah mil vezes mais rica e bela.
Foi nesse momento que sentiu no peito, a dor dos que amam demasiado, e sabem que a vida se lhes escapa nas dobras do tempo. E então chorou. Chorou e cantou. As lágrimas, apenas duas pérolas translúcidas, que tombaram dos seus olhos tristes para o lago belo e insensível. O canto, seu último canto, seu canto de morte, ecoou por todo o lago, subiu as serranias próximas e perdeu-se na imensidão dos céus.
Era o sinal para que os deuses abrissem as portas do paraíso, destinado aos cisnes que amaram como só os cisnes podem amar entre todos os seres vivos. Quando finalmente o belo exemplar negro de cisne fêmea chegou até ele, encontrou apenas um corpo branco, como ne-nhum outro cisne branco conseguira ser, desde que o Grande Cisne criara o Universo, sobre o lago que ondulava tristemente, como que movido por uma compaixão inexplicável.
E como era negra, bela e fêmea, pensou distraída e conformada que era destino dos cisnes velhos morrerem, quando era chegado o tempo dos cisnes velhos morrerem. Não sabia que tinha sido ela, em realidade, a coisa mais importante que ocorrera na vida daquele ser majestoso, que fora um dia o rei do lago. Não sabia que os cisnes só cantam uma vez na vida. Exatamente quando sabem que é chegado o momento de partir para nunca mais voltar. Não sabia que tinha sido ela, seu último sonho, sua última quimera, o seu último e verdadeiro amor.
E por não saber, afastou-se dali, deslizando negra, altiva e bela, na direção de um jovem cisne que a esperava do outro lado do lago.
Pensou em quantas primaveras passara ali, e esboçou um sorriso. Pensou nos verões da sua adolescência, quando os hormônios da juventude o levaram a cometer loucuras mil, e pensou que fora um tempo perdido. Tempo bom, era o da quase senectude que finalmente atingira. E pensou que, no inverno da sua existência, apesar de todas as fêmeas que lhe povoaram o caminho da vida, é que tinha encontrado a sua metade, aquela que fazia com que finalmente, após tanto tempo, se sentisse um ser por inteiro, aquela que lhe fora prometida pelos deuses das águas, quando sequer suspeitava, que estava destinado a nascer para reinar, soberano sobre todos os da sua espécie.
E perdido nos pensamentos, que tal qual um filme antigo, rodavam devagar nos olhos da sua imaginação, não a viu deslizar, vinda da outra margem do lago, na sua direção. O filme interrompeu-se para que ele pudesse apreciar na sua plenitude, aquela fêmea de beleza ímpar, que fizera com que o seu coração batesse mais forte, e voltasse a sonhar e a sentir sensações que julgara sepultadas para sempre, no lodo da vida que deixara para trás. Sorriu mais uma vez, mas era um sorriso diferente. Nem Salomão, em toda a sua glória, tivera tesouro mais precioso. Negra e bela, o sol coruscava, quando refletido na plumagem de ébano que lhe recobria o corpo, como se fosse uma rainha de Sabbah mil vezes mais rica e bela.
Foi nesse momento que sentiu no peito, a dor dos que amam demasiado, e sabem que a vida se lhes escapa nas dobras do tempo. E então chorou. Chorou e cantou. As lágrimas, apenas duas pérolas translúcidas, que tombaram dos seus olhos tristes para o lago belo e insensível. O canto, seu último canto, seu canto de morte, ecoou por todo o lago, subiu as serranias próximas e perdeu-se na imensidão dos céus.
Era o sinal para que os deuses abrissem as portas do paraíso, destinado aos cisnes que amaram como só os cisnes podem amar entre todos os seres vivos. Quando finalmente o belo exemplar negro de cisne fêmea chegou até ele, encontrou apenas um corpo branco, como ne-nhum outro cisne branco conseguira ser, desde que o Grande Cisne criara o Universo, sobre o lago que ondulava tristemente, como que movido por uma compaixão inexplicável.
E como era negra, bela e fêmea, pensou distraída e conformada que era destino dos cisnes velhos morrerem, quando era chegado o tempo dos cisnes velhos morrerem. Não sabia que tinha sido ela, em realidade, a coisa mais importante que ocorrera na vida daquele ser majestoso, que fora um dia o rei do lago. Não sabia que os cisnes só cantam uma vez na vida. Exatamente quando sabem que é chegado o momento de partir para nunca mais voltar. Não sabia que tinha sido ela, seu último sonho, sua última quimera, o seu último e verdadeiro amor.
E por não saber, afastou-se dali, deslizando negra, altiva e bela, na direção de um jovem cisne que a esperava do outro lado do lago.
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