quinta-feira, 22 de julho de 2010

J'ACCUSSE...!

É de todos - ou quase - conhecida a expressão francesa “J'accuse” (Eu acuso), um libelo contra a condenação do oficial do Exército francês, Capitão Alfred Dreyfus, pelo crime de alta traição contra a França. A verdade, é que todo o Estado Maior do Exército francês mentiu e conspirou contra Dreyfus, para livrar da condenação, o verdadeiro culpado, o Major Conde Ferdinand Walsin-Esterhazy, que ao fim, acabou confessando sua culpa. Conforme ficou provado posteriormente, Dreyfus era inocente, tanto que após provada sua inocência, foi reintegrado ao Exército no posto de “Chef d’escadron” (Chefe de Esquadrão), sendo-lhe concedida a mais alta condecoração francesa, ou seja, recebeu o título de Cavaleiro da Legião de Honra concedida pelo Pre-sidente da República da França, representado, na ocasião, pelo general de Brigada Gillain.
Muitos foram os que lutaram pela prova da inocência de Dreyfus, como seu irmão Mathieu Dreyfus, o advogado Edgard Demange e até mesmo o Primeiro Ministro Clemanceau, porém, o mais importante de todos, foi o escritor Émile Zola, que publicou seu manifesto J'Accuse, no jornal L'Aurore, edição de 13 de Janeiro de 1898, sob a forma de uma carta ao Presidente Félix Faure.
Poucos sabem, também, que no dia seguinte à execução da sentença de degradação de Dreyfus, o grande cuasídico brasileiro Rui Barbosa, escreveu de seu exílio em Londres “Que faculdade sobre-humana deu àquele homem energia suficiente bastante para sobreviver às emoções incomportáveis dessa provação? Narram as testemunhas atentas ao suplício, que o executado não empalideceu nunca. Os passos não lhe vacilaram. Não lhe tremeu a voz. A cabeça esteve-lhe sempre ereta.” E ainda que apupado pela multidão, por seus colegas de farda, execrado por todos e vítima do preconceito francês e europeu contra os semitas, pois já, naquela época, eram dados os primeiros passos do holocausto judeu nas mãos dos alemães, durante a Segunda Guerra Mundial, quando foram mortos mais de seis milhões dos descendentes de Sem, nos campos de concentração da Alemanha, Rússia, Polônia, Áustria, Tchecoslováquia e outros países, tanto da Europa Central, quanto da Europa Oriental. Até mesmo em algumas nações da Europa Ocidental, os judeus foram - e ainda são - vítimas de discrimnação.
Eu também, mesmo a milhas de distância da competência e valor de Émile Zola, acuso a classe política brasileira, seja a que atua no Legislativo quanto no Executivo e até mesmo alguns integrantes do outrora sacrossanto Judiciário brasileiro, salvo as exceções que sempre as há, de não terem a postura de um Capitão Dreyfus; de não poderem andar de cabeça erguida, de não poderem bradar como bradou o Capitão Alfred Dreyfus: “Sou inocente. Viva a França!” Quero vê-los, senhores donos do poder, bradar também, de cabeça erguida, no meio deste festival de escândalos que assola toda a República Brasileira: “Somos inocentes. Viva o Brasil!”

quarta-feira, 21 de julho de 2010

O SAPO DA PRAÇA BARÃO

Há muitos anos, havia na Praça Barão do Rio Branco, um sapo. Esclareça-se que não era um sapo qualquer. Era um senhor sapo. Um sapo rotundo. Provavelmente, o maior do mundo.
Pois não é que, como tantas outras coisas neste Amapá que já teve, de tudo um pouco, o sapo su-miu! E sumiu prá nunca mais voltar. Se voltou, ninguém sabe, ninguém viu.
   Talvez meus poucos leitores estejam estra-nhando a súbita saudade que me deu de um sapo. Não outro sapo, repito, mas este sapo. Acontece que o sapo em referência, como se diz em li-nguagem burocrática, ficava bem em frente à antiga agência dos Correios, situada na Praça Barão, e era feito de cimento. Não o Barão, mas o sapo, esclareça-se. Era uma escultura. Sem muito valor artístico é verdade, mas depois de um tempo, até mesmo um sapo de cimento pode ser cultura. Se o bum-bum da Carla Perez já foi  cultura, por que não o sapo da Praça Barão?
E agora, pergunto de modo um tanto quanto sherlockiano: onde andará o sapo da Praça Barão? Dolorosa interrogação, porque duvido que alguém saiba.
A mesma pergunta poderia ser feita para tantas coisas que sumiram, ou na esteira do sapo, ou quem sabe, por uma porta do tempo, para outra dimensão sequer suspeitada ainda, como o farol da For-taleza de São José e os leões de bronze do antigo Fórum. Os atuais leões são muito parecidos, mas não são originais, pelo menos é o que presumo. Quem sabe, são clones em gesso dos leões de bronze? Que sei eu de clones e de leões que perde-ram a sua masculinidade?  Estes são leões poucos sérios, porque perderam nas mãos de algum escultor beato - eu disse beato - aquele penduricalho anatômico, na maioria das vezes inservível, que a maioria dos machos carrega apenas para fazer peso.
Na esteira do sapo e dos leões de bronze, foram-se também as palmeiras que ficavam no centro da Praça Barão; os coqueiros que ficavam em frente ao antigo Fórum; os prédios antigos, varridos pelo vento da modernidade, misturado com a burrice patogênica dos que sempre nos governaram; o chafariz da Praça Veiga Cabral, o aero clube, a Assembleia Amapaense, não o Legislativo, mas o clube social e tantas outras coisas que fizeram com que Macapá, um dia fosse chamada de "A cidade joia da Amazônia". Hoje, não somos mais uma joia. Quando muito, uma bijuteria. Própria das zonas francas da vida.
Convém não esquecer que, tudo indica, tenha sumido também na esteira do sapo, dos leões, do farol, da palmeira e dos coqueiros, a nossa antiga vergonha na cara, a nossa honestidade intrínseca, o nosso modo misto de altivez e simplicidade, a nossa fé de que um dia as coisas poderiam ser bem melhores. Tudo foi embora. Não se sabe como nem para onde. Um dia iremos nós também.
Eu, que não sei rezar, às vezes peço aos deuses da chuva que tenham pena dos que nos sucederão. Eles, sequer têm a inocência que já tivemos um dia.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

NÃO É NEGÓCIO!

A triste verdade, é que ninguém resolve os grandes problemas do Brasil - Amapá no meio - porque isso não interessa a ninguém do mundo da política.
Tomemos como exemplo a educação. Por quê a educação no Brasil é tão deficiente? Pela simples razão de que não interessa aos políticos de terceira classe que nos governam, a educação do povo. Currais eleitorais de analfabetos, independentemente de serem analfabetos puros e simples ou com diplomas de primeiro, segundo ou terceiro graus, são muito mais fáceis de serem manipulados. Não fosse assim e o Go-verno Federal, desde sempre, não faria da educação brasileira, esse monstrengo onde professores fingem que ensinam, alunos fingem que estudam, e o governo finge que paga os professores. Salvo as exceções, que sempre as há.
Outro exemplo: Em que pese as declarações do senhor presidente Lula de que as coisas , nunca antes na história deste país e blá, blá, blá; blá, blá, blá, a verdade é que não interessa a ninguém do andar de cima, a solução para o problema da fome que aflige, tortura e mata milhares de pessoas, Brasil a dentro e Brasil a fora todos os anos. Programas como Fome Zero e outras bolsas esmolas, ainda que eivados das melhores intenções e ótimas como discursos eleitoreiros, não resolvem nada porque são, antes de mais nada, cabides de empregos do chefetes políticos "A" ou "B", sem contar que, mais da metade da verba destinada à execução de tais programas, se perde no meio do caminho, graças à incompetência, à má fé e ao desvio de recursos para o bolso de alguém que tem votos aqui ou ali, e precisa ser adequadamente, digamos, lubrificado para que a máquina eleitoreira possa funcionar. Quanto aos famintos, os desgraçados, os miseráveis, danem-se, morram, levem o "farelo". Desde que votem no cacique de plantão, o resto é irrelevante, porque ao poderoso, só o poder interessa.
E é tão fácil resolver esse problema. Uma refeição básica em qualquer restaurante de terceira classe do país custa R$ 5,00. Alimentar apenas um daqueles famintos, daqueles desvalidos da sorte e abandonados à margem da vida, daqueles que não têm de seu sequer um olhar de misericórdia, daqueles que foram abandonados por Deus, pelo Diabo, pelos homens, pelos Exus e pelos deuses da chuva, custa bem menos.
Todos temos dinheiro para festas, carros importados, investimentos nos bancos da vida, gabinetes de luxo, telefones que fazem tudo e até telefonam, relógios de ouro, brincos, diamantes e outras coisas brilhosas e badulaques os mais diversos. Temos dinheiro para beber champagne Dom Pérignon 54, para almoçar em restaurantes cinco estrelas e nos hospedar em hotéis idem. Temos dinheiro para curtir férias em Paris, Londres ou Moscou. Mas não temos R$ 5,00 para pagar um miserável prato de comida para um menino de rua que implora com o olhar vazio, apenas o resto de comida que terá como destino o cesto de lixo. A nossa piedade é ótima para ser demonstrada nas igrejas. Mas ação que é bom, nem a nossa e muito menos do governo. No que se refere a nós, o pro-blema é dos outros, até porque não temos culpa nenhuma no cartório. Como culpa, se a culpa é sempre dos outros. Ou não?
A Justiça julga, condena e pune com o rigor da lei, todos os dias, pequenos traficantes de drogas, os chamados mulas, aqueles que transportam 5, 10, 15 ou 20 gramas de droga, seja ela qual for. Mas os peixes grandes, os tubarões da droga, aqueles que todos sabem quem são, esses ninguém prende, ninguém julga, ninguém condena e muito menos manda para as penitenciárias da vida. E sabem por que é assim? Porque não é negócio.
Outros problemas como excesso de presos nas penitenciárias, saúde de quinto mundo, ausência total de segurança, corrupção e todas as mazelas que os afligem o Brasil e os brasileiros desde e para sempre, não são e não vão ser resolvidos por uma questão muito simples: NÃO É NEGÓCIO! 

quarta-feira, 14 de julho de 2010

DE SOBERBA E BURRICE

Talvez a coisa mais irritante que exista, além da burrice excessiva, seja a soberba. Não à toa, a soberba é o primeiro dos sete pecados capitais.
A definição clássica, diz que soberba é “a opinião elevada ou presunçosa que se tem das próprias qualidades, realizações ou bens”.
A questão de ser a soberba um pecado, ou não, é relativa. Para os gregos e romanos, com certeza não, uma vez que não tinham uma palavra para pecado, um conceito judaico-cristão. Para estes, a soberba é pecado. Para mim, que jogo no time romano, não é pecado, mas é extremamente irritante e, na maioria das vezes, uma demonstração da mais absoluta falta de inteligência.
Talvez isso explique o nariz um tanto quanto empinado de pessoas que nada são e pensam tudo ser, esquecidas que nem a roupa que vestem lhes pertence, pois da própria vida não são donos.
Uma das entidades mais presunçosas que existem é o Diabo. Primeiro porque tentou dar um golpe de Estado no Reino dos Céus, quando ainda atendia pelo nome de Lúcifer e era o predileto do Todo-Poderoso. Como o “putsch” acabou em fracasso total, foi transformado em símbolo de todo o mal que há. Adotou, possivelmente por inveja - outro pecado capital -, o título de Príncipe das Trevas, o que, se por um lado lhe confere um certo ar de elegância, por outro, não deixa de ser algo um tanto quanto presunçoso - exatamente uma das características da soberba.
A classe dita intelectual é de uma presunção, e por extensão, uma soberba, inaudita. Poucos, muito poucos, leram o Paraíso Perdido ou Guerra e Paz, até o fim. Mas ainda não encontrei um só que admitisse o fato.
A fogueira das vaidades grassa no mundo televisivo, possivelmente para comprovar o tal óbvio ululante de que falava Nelson Rodrigues: não há vida inteligente na televisão.
Existe algo mais presunçoso do que a mulher excessivamente bela? Desculpem, bela e burra?
Mas, na classe dos servidores públicos, ditos do primeiro escalão, é que se encontra a soberba em seu mais alto grau.
Ora, o servidor público do primeiro escalão, que na maioria das vezes, sequer serve ao público, é apenas um burocrata, colocado em determinada função pela vontade popular ou pela vontade do cacique de plantão. Pago com dinheiro público, não cumpre, na maioria das vezes, a missão que lhe foi confiada como exigem os bons manuais de conduta profissional e, ainda assim, se acha no direito de ser arrogante, como sói acontecer a quem não é absolutamente nada e pensa ser tudo ou, pelo menos, muito.
Mas, fiquem todos tranquilos. Eu também tenho minha parcela de soberba. Não fosse assim, não estaria aqui, mexendo em letrinhas, tirando o tempo e a paciência dos meus minguados leitores, como se pudesse ensinar algo a alguém.
Faço, portanto, de público, o “mea culpa”. Mas que a soberba, tal qual a burrice, é extremamente irritante, disso não tenho a menor dúvida.