terça-feira, 27 de julho de 2010

UM MUNDO PERFEITO

Como seria o mundo se cumpríssemos, todos, a lei? Sem discussões, sem arrazoados, sem desculpas, sem alegar desconhecimento? A lei existe? Então que seja cumprida. Só isso, sem tergiversações.
Mas, perguntará o leitor. Que leis devemos cumprir, uma vez que existem leis que, se por um lado são legais, por outro, são profundamente injustas? A pergunta é pertinente, pela simples razão de que realmente é assim que acontece. E mais: na sua maioria, deixam brechas, aberturas, furos, por onde passam os desonestos da vida, desde que tenham advogado de competência - e preço - máximos que possam, com habilidade, burlá-las, ficando na impunidade que assola este país desde sempre.
Mas, ainda que pareça utopia, existe, sim, a possibilidade de um mundo perfeito. Um mundo sem violência de qualquer natureza, um mundo sem furtos, roubos, estelionatos, assalto ao Erário e outros modos de surrupiar de outrem, aquilo que não lhe pertence. Existe, sim, um mundo onde um homem não desejará aquilo que não é seu, nem sua mulher, nem seu escravo, nem sua casa e nem nada que não lhe pertença.
É possível habitarmos um mundo onde suas leis podem ser resumidas em apenas duas. A primeira, pode-se dizer: “Amarás a Deus Todo Poderoso (YHWH), de toda a tua alma, de todo o teu coração, com todas as tuas forças e sobre todas as coisas. Ela está presente nas Tábuas da Lei, entregues pelo próprio Elohim a Moisés. Atende pelo nome de “Os Dez Mandamentos”.
A outra, que poderia ser chamada de o undécimo mandamento, foi dada por Jesus (Yeshuah). E é muito simples. Diz assim: amarás ao teu próximo como a ti mesmo.”
Simples, não? Essas leis existem há milênios. No entanto, de forma irracional, insisitimos em não cumpri-las em absolutamente nada.
E a pergunta que se faz necessária é: em assim agindo, temos o direito de reclamar da sorte que temos, dos sofrimentos que padecemos, e do mundo em que vivemos?
A resposta inevitável é: não.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O DESENCANTO DOS SABIÁS


As coisas acontecem quando menos se espera e nos lugares mais incomuns. O problema é que pouco ou nada nos apercebemos do que realmente ocorre à nossa volta, exceção que abrimos com prazer quase mórbido para as coisas ruins e negativas da vida. É quase inevitável que nos aproximemos para ver de perto, em meio a tantos outros, o cadáver estirado no meio da rua, massacrado por um carro dirigido por um assassino que não será punido nunca. O sangue derramado no asfalto negro nos fascina. É quase como se nos sentíssemos aliviados, por que o morto é outro e não nós, esquecidos no nosso egoísmo, que um dia será a nossa vez. Vivemos absolutamente despreparados para o fato de que um dia qualquer, será o nosso último dia de vida. E quando o momento chegar, diremos, arfantes e angustiados, tal qual Goethe: Mais luz, mais luz. A beleza, essa atinge a pouco de nós. Mas quando somos abençoados e bafejados por ela, é como se um sol suave nos atingisse e iluminasse o lado negro da nossa alma sofrida, é como se todas as cores celestiais nos invadissem a visão e nos transportassem para a ante-sala do Paraíso. E quando o som mavioso do cantar de um pássaro nos invade os ouvidos, todas as células que nos compõem como que param e quedam-se, mudas, a ouvir aquele som que vem do trinar de um passarinho que foi criado apenas para aquele momento de beleza em forma de som. Como estaria a mente de Chopin quando compôs Noturno? Como estava o pianista que a interpretou em Mi Bemol Maior ou a Sonata, dita ao Luar? E que dizer de Wagner quando compôs o Crepúsculo dos Deuses ou o Ouro do Reno? A beleza nos envolve a todos em todos os momentos. É pena que passemos por ela, como os patos passam pelo pelos plácidos lagos nos parques das grandes cidades, sem se permitirem molhar-se, encharcar-se pelo líquido que é fonte de toda a vida que há. Parei para refletir sobre essas coisas dia desses quando, saindo do Tribunal de Justiça da minha cidade, atravessei a rua em direção ao Palácio Governamental. De repente, e eis que não mais de repente, como diria o cronista da página social de um jornal qualquer, eis que sou atingido pelo cantar de um sabiá. Num primeiro momento acreditei estar ouvindo o sabiá da minha imaginação de poeta louco. Mas não, não era imaginação, era real. De repente, o pássaro calou-se. E eu, filho das florestas e caboclo nascido às margens de um rio que deságua no rei dos rios, assobiei imitando o seu cantar. E ele, o sabiá, respondeu-me e por um breve momento conversamos na linguagem dos sabiás. E ele me falou da alegria do nascer do sol e da tristeza de morar numa cidade onde a bulha citadina não permitia que as pessoas o ouvissem. Após isso, bateu asas e refugiou-se numa palmeira existente na entrada do Palácio governamental para dormir o sono dos justos, à espera de mais um dia pleno de sol e beleza. E eu fiquei ali parado, enquanto autômatos humanos entravam e saíam no e do Palácio e os carros passavam, acelerados, levando em seu bojo, outras pessoas que só pensavam em chegar à casa, ligar a televisão e ficar parte da noite, hipnotizados e idiotizados em frente àquela telinha que não produzia nada que valesse à pena, porque todos sabemos que não há sensibilidade e nem vida inteligente no interior das TVs, inventos diabólicos, cujo objetivo é nos causar a pasmaceira em que vivemos mergulhados, enquanto os sabiás cantam, desesperados, tentando nos chamar para o porto seguro da beleza que nos cerca, e que insistimos em não ver, não ouvir e não sentir.

 


sábado, 24 de julho de 2010

UM PLANETA PERDIDO


Era um planeta distante, perdido no meio de milhões de outros planetas habitados na imensidão das galáxias que formam o Universo. Mas, aquele era um planeta diferente, pois que esquecido por Deus. Até o dia em que Ele se lembrou daquele pequeno grão de pó perdido na vastidão do cosmo. E chorou então. Estrelas explodiram aos milhões e sóis não se puseram temerosos e penalizados ante a tristeza Divina. E lembrou-se da ordem que dera não cumprida. Seu Filho, um entre tantos, não descera até aquele planeta longínquo para resgatar os homens que nele viviam. E porque não descera as profecias não se cumpriram. E por não se cumprirem, nunca houve nesse planeta o Natal e nem histórias bonitas como a dos Reis Magos. Nele, nunca houve dezembro, nem árvores cintilantes e multicores. Não houve presépios, nem histórias da Virgem-Mãe. Não houve um lugar chamado Lapônia, nem um homem chamado Papai Noel e suas renas encantadas. E, por causa disso, todas as crianças passavam a noite do Natal que não houve tristes, a olhar fixamente a telinha das ilusões perdidas, seguindo o exemplo do Menino-Deus, que não ouvira a ordem do pai, entretido que estava assistindo televisão.

O LIVRO


Abri o livro e comecei a lê-lo. Antes não o tivesse feito. Nele, vi toda minha vida. Vi coisas que gostei e outras que detestei. Vi as mulheres que rolaram comigo na cama, numa fúria incessante. Vi belas mulheres das quais guardo boas lembranças e outras que antes não tivesse visto. Só amei verdadeiramente duas. Uma na juventude dos meus 17 anos e outra no outono da vida. Desta, guardo lembranças que levarei para o túmulo. Da outra, a lembrança que tenho é a de um rapaz que nada sabia e nada podia, mas pensava tudo saber e tudo poder. Era o dono do mundo. Mas de outras, o que vi no livro da vida foi a sensação de um velho fauno à procura incessante de sua Lolita.
Mas vi, também, a história de um sobrevivente. Aos quatro anos, morando à beira de um rio dos muitos que existem na imensa Amazônia, guardo a lembrança de um menino tuberculoso ao tempo em que o bacilo de Koch era muito, muito letal. Posteriormente, vi o menino tifóide e, anos depois, o sobrevivente da grande gripe asiática que levou para o túmulo centenas de milhares de pobres diabos ao redor do mundo. Problemas aéreos de toda sorte não tiraram minha paixão pela aviação e o naufrágio de uma das dezenas de milhares de embarcações que cortam as águas do grande rio não me tiraram o amor pela vastidão aquática e selvática da minha terra natal. Mas vi, também, nesse estranho livro, o malárico que pedia a morte para cessar a dor, vi o homem turbulento que levou tiros, facadas, porretadas e chifradas. Afinal de contas ainda existem maridos inconformados com o próprio chifre, por incompetência sexual.
No livro da minha vida, vi o marido irresponsável e o alcoólatra, que só encontrava prazer nos bares, onde tudo era alegria, apesar dos pesares. Percorri o país e parte do mundo e vi paisagens fascinantes. Outras, nem tanto. Enfim, vi tanto, sofri tanto e chorei tanto, mas não senti no entanto, o tanto de prazer que tive ao conhecer aquela, cuja lembrança levarei comigo para a eternidade. Na verdade, como diz o poeta, quem passou pela vida em brancas nuvens e em plácido repouso adormeceu, quem não sentiu o frio da desgraça, quem passou pela vida e não sofreu, não viveu, foi apenas espectro de homem, passou pela vida, mas não viveu. E triste daquele que envelhece sem ter histórias para contar. É sinal que apenas passou pela vida, mas não viveu.
Um dia, como diria o compositor popular, quando eu me chamar saudade, não quero choro nem velas, quero uma rosa amarela gravada com o nome dela.
Ainda não viajei a viagem que um dia todos faremos. Quero estar pronto para este momento inevitável. Quando ele chegar, espero que Deus perdoe meus pecados o que acho pouco provável. São tantos que mesmo Ele, na sua bondade infinita não terá ânimo para me perdoar. Quando a hora chegar, quero que uma alma caridosa feche a última página desse livro e o guarde em sua estante. Mas não o leia. Cada um tem seu próprio livro. Alguns, merecem o Prêmio Nobel de Literatura. A maioria, porém, não merece que se passe da primeira página. São livros que contam histórias pífias, cujas páginas - a maioria - estão em branco. Evite-os. Não valem a pena serem abertos.
O fim do livro da minha vida será um plágio de Gabriel Garcia Márquez. “Agora que estou chegando à idade senecta, decidi que era tempo, depois de tanto tempo de abstinência se-xual, telefonar a uma cafetina amiga minha - que me prestou tantos favores nas últimas décadas, ajuda para comemorar meus 90 anos. Queria uma ninfeta para honrar o dia de meu aniversário, eu que há tanto vivia sozinho. Fazia anos que estava na santa paz com meu corpo, dedicado à releitura diária de meus clássicos e meus programas privados de música clássica, mas o desejo daquele dia foi tão urgente que me pareceu um recado de Deus. Pendurei, então, minha rede num canto da biblioteca e me estendi com o peito oprimido pela ansiedade da espera. Foi em vão. Foi nesse dia que parti para o outro lado da vida e, finalmente, encontrei a paz pela qual ansiara tanto.”