É comum que cristãos católicos usem o termo apócrifo para designar os escritos de assuntos sagrados que não foram incluídos pela Igreja no Cânon das Escrituras autênticas e divinamente inspiradas. A doutora em assuntos bíblicos, Maria Helena de Oliveira Tricca, compiladora da obra “Apócrifos”, cita “Os Proscritos da Bíblia” que afirmam: “Muitos dos textos apócrifos já fizeram parte da Bíblia, mas ao longo de sucessivos concílios acabaram sendo eliminados. Houve os que depois foram reincluídos e, durante algum tempo tornariam a partilhar a Bíblia.”
Como exemplo, podemos citar: “O Livro da Sabedoria”, atribuído a Salomão, o Eclesiástico ou Sirac, “As Odes de Salomão”, o “Tobit” ou “Livro de Tobias”, o Livro dos Macabeus, e muitos outros. A maioria ficou definitivamente excluída do Livro dos Livros, como o famoso “Livro de Enoch”, o “Livro da Ascensão de Isaías” e os “Livros III e IV dos Macabeus”.
Mas, a pergunta que ninguém responde é: Quais foram os reais motivos para excluir esses livros das chamadas Santas Escrituras? Há quem questione que os “santos padres” da época se achavam superiores aos Apóstolos e mártires que vivenciaram de perto os acontecimentos relacionados a Cristo e ao judaísmo. E realmente, cabe a pergunta: De que poder se revestiam esses padres, para afirmarem que alguns Textos Evangélicos não representavam os ensinamentos da “Palavra de Deus”? Ou será que contrariavam esses textos, os interesse da Igreja de então? Quem nos há de responder? O certo, é que temos hoje, como consequência, uma Bíblia menor, incompleta, aleijada, porque alguns, na sua arrogância suprema, determinaram que tal coisa podia ou não, ser conhecida pelos que adviriam. Esta, sim, é a lamentável verdade. Pelo menos para mim. Não me cabe culpa alguma se, aqueles que se dizem extremamente religiosos e que, ao meu ver, padecem da obtusidade córnea de que nos falava Eça de Queiroz, limitam-se à aceitação literal dos textos ditos sagrados. Que a Bíblia é um livro absolutamente fantásticos pelas lições de sabedoria que dá a quem a manuseia, nenhuma dúvida. Não à toa é o livro mais editado e lido em todos os tempos e por todos os habitantes deste planeta, simples grão de areia diante da imensidão do Universo que nos cerca.
Mas, voltando aos textos ditos apócrifos, sabemos que existem mais de 60 evangelhos apócrifos como os de Tomé, de Pedro, de Felipe, de Tiago, dos Hebreus, dos Nazarenos, dos Doze, dos Setenta (ver Septuaginta), etc.
Apenas para que se tenha ideia melhor do que foi retirado da Bíblia, basta que se saiba que no início do cristianismo, os evangelhos eram em número de 315, sendo reduzidos a apenas quatro no Concílio de Nicéia, realizado no século I da era cristã.
Há quem acredite que, em relação ao Velho Testamento, a questão só foi resolvida por ocasião do Concílio de Trento. Determinou-se então, que os livros I e II de Esdras e a Oração de Manassés sairiam da Bíblia. Na contrapartida, alguns textos apócrifos foram reincorporados nos livros canônicos como “O Livro de Judite” (acrescido em Ester), “Os Livros do Dragão” e o Livros dos Três Santos Filhos” (acrescidos em Daniel), e o Livro de Baruch (que traz a Epístola de Jeremias”.
Consta, ainda, que os católicos não teriam sido unânimes quanto à inspiração desses livros. No Concílio de Trento, chegou-se ao cúmulo da luta corporal entre adversários, quando esse assunto foi tratado.
Lorraine Boerner (in Catolicismo Romano), afirma que o Papa Gregório, o Grande, declarou que primeiro Macabeus é um livro apócrifo, não sendo, portanto, um livro canônico. Sabe-se também que o cardeal Ximenes, em sua Bíblia poliglota, exatamente antes do Concílio de Trento, exclui os apócrifos e sua obra foi aprovada pelo Papa Leão X.
A propósito, o termo “apócrifo”, significa em grego, “ocultado” e não, necessariamente “falso”, como pensam alguns.
De certo, o que temos hoje, é uma Bíblia que, se de um lado é o maior de todos os livros, poderia ser, também, um livro muito maior nos seus ensinamentos, que basicamente tratam da vida, da morte e de todas as ciências humanas, além de nos contar histórias de homens que foram grandes, enormes na sua humildade, generosidade e na sua sabedoria, além de mostrar, em toda a sua glória, esse homem divino, podemos afirmá-lo, que se chamava Yeshuah na sua língua natal.
quinta-feira, 6 de maio de 2010
UMA GAVETA VELGA
Sem muito o que fazer, decidi abrir uma gaveta velha. Não devia. Gavetas velhas não deveriam ser abertas jamais. São depósitos dos nossos sentimentos mais recônditos. Alguns tão ve-lhos que a gente nem lembra mais.Dentro da gaveta velha, encontrei uma porta que não deveria ser transposta jamais. É uma porta que conduz ao passado, a um tempo em que a gente não sabia que o futuro existia. E hoje, quando o futuro é presente, o passado fica tão doído, tão triste como só conseguem ser as teias de aranha tecidas pela poeira do tempo. Um tempo que sabemos, não voltará jamais. Não podem ser mexidas. Correm o risco de se desmanchar, se autodestruir.E na gaveta do tempo voltei a te encontrar e chorei. Chorei como só os velhos que ficaram velhos demais conseguem chorar. Com saudade de um tempo tão pleno, tão denso, tão rico, tão promissor, e que hoje vemos, era apenas uma promessa que não se cumpriu, uma semente que não brotou, uma imagem que não se fixou. Ficou envolta nas brumas de Avalon, quem sabe? Que sei eu das lendas do rei Arthur?Mas sei das tuas lendas e das minhas lendas, que pensávamos fossem histórias. Eras tão bonita, que não sei como me esqueci disso. Talvez porque o tempo nos torna feios. Por dentro e por fora. As agressões desnecessárias deixam feridas que o tempo não cura. São feridas que doem demais, doem tanto, que os muito novos não têm como acreditar que tanta dor seja possível. Só saberão do que se trata, quando for tarde demais, e estiverem eles também, velhos demais.
Quando isso ocorrer, não poderei chorar com eles, porque serei pó, varrido pela planície da eternidade. Se tiver sorte, uma tempestade solar pode conduzir-me para as estrelas. Serei então o pó que rodeia as estrelas, onde tudo está escrito. Até mesmo que um novo amor é possível.
Mas isso não impedirá que eu sinta uma terrível, uma enorme saudade de mim, uma imensa saudade de ti...
Mas isso não impedirá que eu sinta uma terrível, uma enorme saudade de mim, uma imensa saudade de ti...
terça-feira, 4 de maio de 2010
SOBRE A IMPUNIDADE
Talvez a maior mazela de tantas quantas se abatem sobre o Brasil de hoje e de sempre seja a impunidade. Ela, a impunidade, é a resposta que se dá nesta terra, a tantos crimes contra a vida, contra a honra, contra o patrimônio. Mata-se no Rio de Janeiro, em São Paulo, em Minas Gerais, nas Alagoas, em Pernambuco, no Amazonas, enfim, mata-se do Oiapoque ao Chuí. Mata-se tanto, que segundo o Ministério da Justiça, o Brasil chegou ao final de 2008, com o inacreditável número de um milhão de homicídios praticados desde 1978. Ou seja, em 30 anos, um milhão de homicídios. Um milhão de qualquer coisa é muita coisa. E note-se que, oficialmente, não estamos em guerra civil. Ou será que estamos?
A vida de um ser humano no Brasil é a única mercadoria deflacionária: vale apenas um pedaço de chumbo. Os bandidos cortam a barriga de um pobre chefe de família que volta para casa, roubam-lhe os embrulhos, e, sorrindo, deixam o infeliz estirado numa poça de sangue. Casais são assaltados e levam tiros no rosto. A violência, o latrocínio, a morte fria campeiam impunemente pelos campos da Terra Brasilis, e não se vê uma atitude decisiva, um grito de advertência, como se tudo fosse natural. A impunidade forja os maus exemplos. Novos bandidos surgem. Novas quadrilhas de marginais se formam - e a impunidade continua. A Polícia pode fazer justiça, fazer limpeza, livrar país de assassinos irrecuperáveis - mas, apenas os assassinos que vieram dos morros, que vieram da sarjeta desaparecem. Os abastados, a turma do andar de cima, os integrantes do primeiro escalão, esses ficam impunes. E não se pense que isso acontece só agora. A coisa é muito anterior ao famoso caso da menina Aída Cúri, assassinada há décadas no Rio de Janeiro, por frios criminosos que nunca foram punidos.
Mas, podemos citar outros casos, também muito famosos, que ficaram na impunidade. Por exemplo, o caso do jornalista Antonio Pimenta Neves, que matou a tiros sua namorada Sandra Gomide, à época com 32 anos, ou seja, na flor da juventude. E o que é pior, matou-a covardemente com um tiro nas costas e outro na cabeça. O crime já completou mais de nove anos e Pimenta Neves, réu confesso e condenado em primeira e segunda instâncias continua livre como um pássaro.
Outro caso famoso é o de Doca Street, assassino da mulher, a atriz Ângela Diniz. Condenado a 15 anos de prisão, cumpriu quatro, e olhe lá. Apenas para refrescar nossa memória, vamos ao caso do cantor Lindomar Castilho, que matou a ex-mulher, Eliane de Gramond, em 1981, com um tiro no peito. Condenado a 12 anos de cadeia, cumpriu dois anos em regime fechado e mais dois em regime semiaberto.
Esses, são apenas alguns exemplos de gente famosa que não foram adequadamente punidos pelo mais grave dos crimes, a morte. E note-se que nem estamos falando, ainda, de alguns integrantes das corporações políticas, que assaltam o Erário todos os dias, sem que lhes aconteça absolutamente nada. E a pergunta que ninguém responde é: de que nos vale ter tantas leis, se não são cumpridas na sua integralidade?
Entretanto, estranhar o quê, se o próprio presidente da República, senhor Luiz Inácio da Silva diz que, no Brasil, há leis que pegam e outras que não pegam, num desrespeito acintoso ao Poder Judiciário brasileiro.
Talvez esteja certo o falecido deputado federal paulista Ulysses Guimarães, quando disse que, no Brasil, existiam leis, sim, e que eram rigorosamente aplicadas, mas apenas para os integrantes do grupo dos três “Ps” da vida: Preto, Pobre e Puta.
A vida de um ser humano no Brasil é a única mercadoria deflacionária: vale apenas um pedaço de chumbo. Os bandidos cortam a barriga de um pobre chefe de família que volta para casa, roubam-lhe os embrulhos, e, sorrindo, deixam o infeliz estirado numa poça de sangue. Casais são assaltados e levam tiros no rosto. A violência, o latrocínio, a morte fria campeiam impunemente pelos campos da Terra Brasilis, e não se vê uma atitude decisiva, um grito de advertência, como se tudo fosse natural. A impunidade forja os maus exemplos. Novos bandidos surgem. Novas quadrilhas de marginais se formam - e a impunidade continua. A Polícia pode fazer justiça, fazer limpeza, livrar país de assassinos irrecuperáveis - mas, apenas os assassinos que vieram dos morros, que vieram da sarjeta desaparecem. Os abastados, a turma do andar de cima, os integrantes do primeiro escalão, esses ficam impunes. E não se pense que isso acontece só agora. A coisa é muito anterior ao famoso caso da menina Aída Cúri, assassinada há décadas no Rio de Janeiro, por frios criminosos que nunca foram punidos.
Mas, podemos citar outros casos, também muito famosos, que ficaram na impunidade. Por exemplo, o caso do jornalista Antonio Pimenta Neves, que matou a tiros sua namorada Sandra Gomide, à época com 32 anos, ou seja, na flor da juventude. E o que é pior, matou-a covardemente com um tiro nas costas e outro na cabeça. O crime já completou mais de nove anos e Pimenta Neves, réu confesso e condenado em primeira e segunda instâncias continua livre como um pássaro.
Outro caso famoso é o de Doca Street, assassino da mulher, a atriz Ângela Diniz. Condenado a 15 anos de prisão, cumpriu quatro, e olhe lá. Apenas para refrescar nossa memória, vamos ao caso do cantor Lindomar Castilho, que matou a ex-mulher, Eliane de Gramond, em 1981, com um tiro no peito. Condenado a 12 anos de cadeia, cumpriu dois anos em regime fechado e mais dois em regime semiaberto.
Esses, são apenas alguns exemplos de gente famosa que não foram adequadamente punidos pelo mais grave dos crimes, a morte. E note-se que nem estamos falando, ainda, de alguns integrantes das corporações políticas, que assaltam o Erário todos os dias, sem que lhes aconteça absolutamente nada. E a pergunta que ninguém responde é: de que nos vale ter tantas leis, se não são cumpridas na sua integralidade?
Entretanto, estranhar o quê, se o próprio presidente da República, senhor Luiz Inácio da Silva diz que, no Brasil, há leis que pegam e outras que não pegam, num desrespeito acintoso ao Poder Judiciário brasileiro.
Talvez esteja certo o falecido deputado federal paulista Ulysses Guimarães, quando disse que, no Brasil, existiam leis, sim, e que eram rigorosamente aplicadas, mas apenas para os integrantes do grupo dos três “Ps” da vida: Preto, Pobre e Puta.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
CONTRADIÇÕES
O ser humano, antes de mais nada, é um ser extremamente contraditório. Vejamos, por exemplo, o que fez Adamat, o primeiro homem, segundo a Bíblia. Vivendo e morando no Jardim do Éden, e tendo a possibilidade da vida eterna, insatisfeito, decidiu optar pela finitude própria*, pelo castigo de trabalhar todos os dias para poder comer o pão que o diabo amassou, muito embora não esteja escrito em lugar algum, que o diabo tenha sido padeiro algum dia.**
Outro homem, este muito importante, mas extremamente contraditório, foi o rei hebreu Salomão, cognominado o mais sábio dos homens. Até onde vai o meu analfabetismo explícito, não me consta que sábios matem ou ordenem a morte de irmãos ou demais parentes que possam de algum modo, atrapalhar seu caminho em direção a um eventual trono. E foi exatamente o fez ou mandou fazer Salomão, até que não mais restasse ninguém que se interpusesse em seu desejo de ser rei de Israel.
Caim, filho de Adão, é outro exemplo de contradição. Irmão de Abel, permitiu que a inveja dominasse seu coração e por isso matou seu frater. Nessa época, tempo em que os homens falavam com Deus ao vivo e em cores, Caim perdeu esse privilégio, foi amaldiçoado pelo próprio Senhor dos Exércitos, escorraçado do lugar em que vivia, e condenado a perambular pelo planeta dos homens, sem ter um amigo, sem ter um lugar onde pudesse a fronte pousar, exposto ao tempo e ao vento, padecendo os maiores tormentos, fugitivo dos homens na paz, e também da morte na guerra, como bem poderia ter dito Gonçalves Dias em seu I-Juca-Pirama. E tudo isso apenas por ser um homem pleno de contradições.
Moisés é outro exemplo de como os homens podem pagar um preço alto demais por serem contraditórios em seu modo de ser. Após receber das mãos do próprio Deus e Senhor de tudo o que há, as Tábuas da Lei, também conhecida como Os Dez Mandamentos, foi o primeiro a contrariar o artigo que diz: "Não matarás". O artigo ou mandamento, como preferirem, que diz "Não matarás", é seco, sintético, limpo. Diz apenas, "Não matarás" e ponto final. Não consta que ordenasse, "Não matarás", exceto em caso de defesa própria ou de outrem; exceto se fores filho do deputado A ou B, ou do senador C ou D, ou ainda do empresário X ou Y. Diz apenas, não matarás. E foi isso, exatamente que fez o próprio Moisés ao descer do alto do Monte Sinai, lugar de seu encontro com Deus, ao mandar passar a fio de espada algo em torno de 3.000 homens que fizeram e adoraram o Bezerro de Ouro, durante sua ausência, descrentes de Deus e dos homens. Por causa disso, Moisés pagou o preço de não pisar na Terra Prometida, passando a Josué seu cajado e avistando a terra de Israel apenas de longe. Além disso, seu povo foi condenado a vagar durante 40 anos pelo deserto, até que toda aquela geração fosse extinta. Um preço alto demais apenas por causa do espírito contraditório de um homem da mais alta importância para toda a história do homem ocidental.
A lista é interminável. Hitler, que deu o pontapé inicial na Segunda Guerra Mundial, mandou que fossem exterminados em fornos crematórios e outras formas de execução em massa, pelo menos seis milhões de judeus. O problema é que, além da monstruosidade do crime praticado em nome da raça ariana ou germânica, Hitler não era alemão, era austríaco. E, segundo afirmam diversos historiadores, tinha remota ascendência judaica.
Finalmente, para não cansar muito meus eventuais leitores, muitas pessoas, tendo a possibilidade de serem livres, tornam-se prisioneiras de si mesmas ou de outrens por vontade própria, porque, como dizia Nietsche, "chegam à convicção fundamental de que têm de ser comandadas, e por causa disso, tornam-se "crentes". Inversamente, pode-se imaginar um prazer e força na autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despe de toda crença, todo desejo de certeza, treinado que é em se equilibrar sobre tênues cordas e possibilidades e em dançar até mesmo à beira de abismos. Um tal espírito seria o espírito livre por excelência."
Outro homem, este muito importante, mas extremamente contraditório, foi o rei hebreu Salomão, cognominado o mais sábio dos homens. Até onde vai o meu analfabetismo explícito, não me consta que sábios matem ou ordenem a morte de irmãos ou demais parentes que possam de algum modo, atrapalhar seu caminho em direção a um eventual trono. E foi exatamente o fez ou mandou fazer Salomão, até que não mais restasse ninguém que se interpusesse em seu desejo de ser rei de Israel.
Caim, filho de Adão, é outro exemplo de contradição. Irmão de Abel, permitiu que a inveja dominasse seu coração e por isso matou seu frater. Nessa época, tempo em que os homens falavam com Deus ao vivo e em cores, Caim perdeu esse privilégio, foi amaldiçoado pelo próprio Senhor dos Exércitos, escorraçado do lugar em que vivia, e condenado a perambular pelo planeta dos homens, sem ter um amigo, sem ter um lugar onde pudesse a fronte pousar, exposto ao tempo e ao vento, padecendo os maiores tormentos, fugitivo dos homens na paz, e também da morte na guerra, como bem poderia ter dito Gonçalves Dias em seu I-Juca-Pirama. E tudo isso apenas por ser um homem pleno de contradições.
Moisés é outro exemplo de como os homens podem pagar um preço alto demais por serem contraditórios em seu modo de ser. Após receber das mãos do próprio Deus e Senhor de tudo o que há, as Tábuas da Lei, também conhecida como Os Dez Mandamentos, foi o primeiro a contrariar o artigo que diz: "Não matarás". O artigo ou mandamento, como preferirem, que diz "Não matarás", é seco, sintético, limpo. Diz apenas, "Não matarás" e ponto final. Não consta que ordenasse, "Não matarás", exceto em caso de defesa própria ou de outrem; exceto se fores filho do deputado A ou B, ou do senador C ou D, ou ainda do empresário X ou Y. Diz apenas, não matarás. E foi isso, exatamente que fez o próprio Moisés ao descer do alto do Monte Sinai, lugar de seu encontro com Deus, ao mandar passar a fio de espada algo em torno de 3.000 homens que fizeram e adoraram o Bezerro de Ouro, durante sua ausência, descrentes de Deus e dos homens. Por causa disso, Moisés pagou o preço de não pisar na Terra Prometida, passando a Josué seu cajado e avistando a terra de Israel apenas de longe. Além disso, seu povo foi condenado a vagar durante 40 anos pelo deserto, até que toda aquela geração fosse extinta. Um preço alto demais apenas por causa do espírito contraditório de um homem da mais alta importância para toda a história do homem ocidental.
A lista é interminável. Hitler, que deu o pontapé inicial na Segunda Guerra Mundial, mandou que fossem exterminados em fornos crematórios e outras formas de execução em massa, pelo menos seis milhões de judeus. O problema é que, além da monstruosidade do crime praticado em nome da raça ariana ou germânica, Hitler não era alemão, era austríaco. E, segundo afirmam diversos historiadores, tinha remota ascendência judaica.
Finalmente, para não cansar muito meus eventuais leitores, muitas pessoas, tendo a possibilidade de serem livres, tornam-se prisioneiras de si mesmas ou de outrens por vontade própria, porque, como dizia Nietsche, "chegam à convicção fundamental de que têm de ser comandadas, e por causa disso, tornam-se "crentes". Inversamente, pode-se imaginar um prazer e força na autodeterminação, uma liberdade da vontade, em que um espírito se despe de toda crença, todo desejo de certeza, treinado que é em se equilibrar sobre tênues cordas e possibilidades e em dançar até mesmo à beira de abismos. Um tal espírito seria o espírito livre por excelência."
PS.:
* Adão, ao optar pela própria finitude, condenou todos os seus descendentes a serem finitos "ad infinitum", assim como condenou à morte, toda e qualquer forma de vida.
** A parte boa dessa história é que Adão, ao comer do fruto proibido, cometeu o mais doce dos pecados.
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