quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

NIVELANDO POR "BAICHO"

Uma corrente entre os profissionais do Direito, na qual se incluem professores, defende a tese de que expressões em latim devem ser abolidas da prática advocatícia. Talvez queiram, indo mais longe, que se esqueça que o arcabouço jurídico no qual se apóia o Direito Ocidental tem origem latina. Para eles, o ideal é facilitar as coisas de modo que o estudante de Direito estude menos e aprenda menos ainda.

Na mesma direção, caminham professores da última flor do Lácio, inculta e bela como diria o poeta. Pretendem que se escreva do modo como fala o vulgo, o populacho, a malta, a choldra, caso em que se poderia dizer que querem que se "fali comu o populaxo, a mauta, a xoldra.” Ou seja, querem ambas as correntes, o nivelamento por baixo. Isto talvez explique o sucesso do brega e dos Paulos Coelhos da vida.
Pensando bem, sou a favor. E para que as coisas ficassem bem mais simples, o primeiro passo seria abolir a expressão “educação superior”, já que a educação teria a mesma altitude do rés do chão. E que tal chamar o professor, dito superior, de tio? Ou seria til?
Mas, se é para nivelar por baixo, se é para facilitar, por que não eliminarmos os cursos de medicina avançada. Um enfermeiro qualquer poderia receitar remédios para doenças tradicionais como caxumba - ou seria cachumba? - dor na ponta da pá, falta de ar, unha encravada e furada de prego? Aliás, no Amapá, as parteiras tradicionais já tornam dispensáveis ginecologistas. Elas têm salvado milhões de vidas ao longo do tempo, muito embora algumas feneçam ao nascer, por falta de maior conhecimento por parte dessas mulheres que são a tábua de salvação das pobres grávidas de homens pobres. Pela vontade dos donos dos novos tempos do nivelamento por baixo, maternidades são perfeitamente dispensáveis, uma vez que as nossas competentes parteiras tradicionais podem resolver qualquer problema que ocorra com a mulher gestante. E que tal deixarmos de construir prédios imensos e voltarmos às choupanas, coisa que qualquer um pode erigir, sem a necessidade de forçar pobres e analfabetos estudantes a estudar mais?
Com sorte, poderíamos dispensar os livros e voltar ao estilo talibã de administrar. Afinal de contas, ler dá um trabalho insano. E depois, quem tem o hábito de ler é visto pelos analfabetos de todos os níveis educacionais como mero exibicionista.
Na área musical não precisamos simplificar mais nada. Quem tem nos Reginaldos Rossis da vida seus ícones e nas BBBs, seu ideal de beleza e cultura merece viver no país da simplificação geral.
A propósito, o avanço tem sido grande nesse processo de nivelamento por baixo. Coisas como cultura, ética, oratória, honestidade deixaram de ter importância. No campo político, então, avançamos muito. Por falar nisto, políticos de todos os naipes ideológicos ou mercadológicos deveriam deixar de brigar. O combate não é mais entre o mocinho e os bandidos. É apenas entre bandidos. E como todo bandido que se preza, já estão todos devidamente nivelados. Por baixo. Ou seria por baicho?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A AMPULHETA DA SAUDADE

A ampulheta da saudade estava cheia. Era uma ampulheta imensa. Do tamanho da minha vida. Mas, o que era a minha vida se a tua vida não estava nela? Para quem não sabe, o deus da Misericórdia me fez nascer para te encontrar. Porém, como mesmo no Olimpo, existem o verso e o anverso, o deus da Impiedade emborcou a ampulheta da saudade e me fez chorar desde o momento que nasci até o inevitável momento da minha morte. E ela, a ampulheta da saudade, vazando sem cessar não percebia que a cada grão que se ia, a minha vida ia com ela. Mas não ia como veio. Ia menor, porque a única coisa que poderia me fazer maior era tu, que primavas pela ausência. Naquela época, eu nem sabia como era a tua forma perfeita e já então chorava a saudade ancestral de ti. Recusei-me a morrer, muito embora a trilha da minha vida fosse um caminho aterrador de dor e sofrimento. Por que viver, se a vida é apenas um enorme, um imenso grito de dor?, perguntei-me. Não obtive resposta. O silêncio da minha alma era tão grande que não me permitia emitir o menor som.

Um dia, quando já me aproximava do fim, senti vibrar uma força vital que não sentira ainda. Por causa disso, levantei-me e caminhei na direção daquela estranha luz negra que varria os caminhos da solidão; que perfumava os campos pantanosos onde me arrastara naquela vida extravagantemente pegajosa; que tocava os sons mais harmoniosos que ouvidos humanos já tinham ouvido desde a criação do mundo. E renovado por aquele hálito de esperança que bafejava todo o meu ser, ajoelhei-me em sinal de adoração, e pecando todos os pecados sequer imaginados pela Serpente do Oriente, abracei-te e te beijei com a sofreguidão dos muito sedentos.
Hoje repouso em paz, livre das minhas angústias, e olho com olhar maroto a ampulheta da saudade que parou na fronteira da vida e da morte. Pobre ampulheta que não conseguiu cumprir sua terrível missão. Não sabia ela que toda a saudade do mundo acaba quando se encontra a mulher-sonho que cada um de nós traz dentro de si, mas que só os beijados pela Fortuna têm a felicidade de encontrar.
Eu fui um deles, por isso, me balanço na minha rede cabocla atada entre duas estrelas. E me balanço entre braços e abraços com a metade de mim, que sei, não me deixará chorar lágrimas de saudades nunca mais. Pelo menos enquanto houver duas estrelas no céu, dispostas a servir de escápulas para a rede de amantes eternos. Tão eternos quanto a luz das estrelas.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O HOMEM QUE SONHOU AMARELO

Uma história antiga fala de um governante que conseguiu sensibilizar o povo com um discurso belíssimo, cuja temática central era a cor azul. Falava do azul como panaceia para todos os problemas da população. Estava tão convencido de que era a solução dos problemas de seu povo, que acabou convencendo a todos. Ou quase.

Falou então do céu azul do seu reino e dos garimpos onde ágatas e lápis-azúli podiam ser recolhidas à mancheia. Falou de grandes esperanças, ledor habitual que era de Charles Dickens e afirmou peremptoriamente que a esperança era azul.
Sua dedicação ao azul era tamanha, que até importou de um país africano, um hábil caçador de pedras azuis. Descobriu tarde demais que o estrangeiro gostava mais do verde do que qualquer outra cor. Seu objeto do desejo eram as verdinhas, as legítimas, das quais Fort Knox e cofres suíços estão abarrotados.
Diz-se que tudo começou uma noite em que, sonhando, teve uma alucinação. Sonhou que tudo era azul. Sonhou com tanto realismo, que quando acordou tudo estava azul. Seu quarto estava completamente azul. A cama estava azul, o travesseiro, azul; o guarda-roupa, os tapete, o próprio espelho. Tudo estava azul. Saiu para o quarto e dirigiu-se à cozinha. Não deu outra. Tudo azul. A mulher azul, colocava um café azulna mesa azul, também.
Dizem os mais exagerados, que até o Green Peace tornou-se Blue Peace, e o proóprio PV tornou-se PA (Partido Azul).
Um dia, muito depois de ser eleito, olhando a principal avenida azul da sua azul capital, viu ao longe u’a mancha amarela.
Sabem o que era a mancha amarela?
Era o homem que sonhou amarelo e quando acordou, tudo estava amarelo. O palácio estava amarelo ...